sábado, 29 de outubro de 2011

Povoados imaginários e outros contos

a aflição é bem mais que um ponto

a notícia deslizou pela beirada das coisas com uma iniquidade sangrenta resvalou pelo assoalho polido entrou pelo fogão a dentro e brincou com as pontas da colcha de cama injuriou as paredes brancas e o perfume do desinfetante no banheiro espalhando pela casa toda um invisível e adocicado cheiro de sangue

um remorso tangente e fino como um corte sem nenhuma cicatriz brincou um pouco no ar perdido da sala e depois firmou-se entre batentes das portas e quadros e passou a existir por ali fincado e tonto para todo o sempre

a lua chegará prá ti

no fim da tarde logo que o sol mergulhar no mar sairemos as duas a passeio

sei que serás pequenina ainda e que o mar talvez seja só um som assustador um som entre silêncios mais amenos ou uma onda e outra dentro do teu corpo

andaremos juntas pela areia Catharina sem nada pensar e o céu irá se tingindo pouco a pouco de vermelho e depois virão devagarinho as primeiras estrelas e enquanto seguimos caminhando eu pensarei um desejo

mas pensar o que na proximidade da noite negra subindo do mar e só os respingos d' água sobre nós duas isoladas de tudo de todos

então irei só te contando histórias minúsculas sem falar porque o silêncio de tão grande abraçará nós duas num grande véu de bondade

imenso esse silencio que virá das curvas dos morros e de todas as árvores que moram escondidas no sertão e das profundezas distantes desse mar que atravessa o mundo seguirei pisando por mim e por ti conchinhas e pedras e os cães vadios nos acompanharão quietinhos porque então já estarás dormindo linda linda tão menina!

e no teu sonho que sonhos será sonharás? sem dúvida ouvirás minha voz cujo coração bate tão rente ao teu que é quase um só coração e todas as estrelas que irão aos poucos estrelando os céus desse lugar brilharão por nós

e saberás de um mundo sem palavras que pode conter peixes ares mares e verões tardios e eu te direi palavras sem corpo sem nenhuma letra cada uma todas juntas do tamanho do meu amor

e só nós duas na noite nós duas bem silenciosas como gaivotas estreladas

que silêncio enorme minha menina

ah minha menina um silêncio imenso de fazer sonhar


apenas um punhadinho

a jabuticabeira sorriu perfumada com a chegada do dia tão diversa de tudo e tão real ela olhou a brancura desse perfume por trás do véu esquisito do tempo e puxou um pouco mais a cortina

regiões planas junto às jabuticabas maduras e mangueiras latas velhas pingando uma a uma suas gotas nos troncos limosos e gatas gritando num cio sem fim eram imagens ela pensou apenas desnecessárias imagens

aquietou-se em si mesma ouvindo desde longe no passado o canto opaco da morte com os olhos cerrados tentando entender ou ao menos se conformar de que o mundo fosse assim e de que existisse o tempo que gostaria de deter como agora parar essa caminhada essa conta inexorável que palavra era essa tão assustadora inexorável ....como o tempo passando e passando dentro mesmo do seu corpo em cada célula sua nas lembranças que se esvaiam sem aviso ou despedida

e ficou atenta enquanto as paredes do quarto restavam duras cruéis e lisas na sua medíocre e sempre perene tranqüilidade

as paredes eram tão brancas que Carolina sorriu deliciada de si mesma

porque haveriam de ser assim se ela sabia que ao redor delas o mundo o vasto mundo com suas montanhas e mares e aldeias que ela jamais conheceria era inquieto farto amplo e desprotegido ?

do outro lado dali em lugares que sua imaginação fazia ferver na mais completa e absorvente ausência luzes estariam se acendendo e uma mulher chamaria uma criança naquela voz delicada que todos os pequenos sinos têm quando se lembra o que não existe quando se pensa naqueles espaços que são apenas de sonhos e da mais difusa percepção

e estaria a cada instante do seu pensamento um pouco mais escuro e um pouco mais escuro em qualquer lugar perdido nos campos de todas as cores dessa terra

e haveria também um descampado em qualquer lugar onde o sol do meio dia pediria o descanso de sombras que nem no horizonte se adivinhava e alguém muito sozinho mais bem mais que ela mesma ainda deitada na cama olharia aflito a imensidão que o calor do sol fazia tremular como marolas num oceano de impossíveis formas

esse alguém muito sozinho e ela podia vê-lo seus olhos protegendo-se do sol inclemente um vulto sério num ermo sem nenhum vento nesse deserto que ela jamais conheceria

mas pensou tão forte agora com um desespero tão grande que a solidão só aprofundava e enquanto o domingo escorria preguiçoso ela podia perceber na respiração daquele homem um sentido que se alongava um gemido mudo que só ela podia sentir uma dor tão sem remédio que ela nem podia transformar em melodia

então as paredes brancas do seu quarto se misturaram aos poucos com o ar morno daquela areia imaginária que ela jamais pisaria e seus olhos podiam agora percorrer o rosto cansado do sol inclemente quase conseguindo acariciar esse vulto perdido em seu pensamento

as cercas eram de arame farpado

foi quando ela sentiu a mão de seu pai a conduzi-la pela noite estrelada e havia tantas estrelas como nunca mais

ao longe muito longe mesmo na neblina um trem desafiava as horas lentas daquilo que nunca mais haveria de ser vivido

seu pai e ela caminhavam devagar na noite estrelada entre um ou outro latido de cães e o frio daquelas noites mora ainda em seu rosto enquanto a alma afugenta pensamentos da mais sombria desesperança pensamentos que pertencem à realidade das casas das ruas das coisas de agora das pequenas infelicidades dos atropelos diários das portas dos apartamentos das contas dos dias que correm rápido demais rumo ao abismo do tempo

seu pai e ela na infinita noite estrelada

e havia naquela época um silêncio de quintais adormecidos pela névoa e era bom passar rente às cercas deixando a mão escorregar entre os bambus levando o sereno guardado entre os fiapos da madeira

na estação perdida sempre numa neblina abismada de que o ar pudesse ser assim tão concreto tão visível tão cheio de pressentido esquecimento daqueles momentos que estavam de um modo tão fantasmagórico sendo vividos eles ficavam e entre uma conversa e outra de homens no repente mais inquietante e surpreso da madrugada a locomotiva apontava rompendo a massa líquida do ar e a escuridão que envolvia as luzes quietas da estação luzes que apenas se deixavam ficar

uma voz alguém que se despedia e depois a viagem e os campos que passavam sem tomar conhecimento de outras existências tampouco de si mesmos fincados no chão daquele mundo e os laranjais que começavam a amarelar o despertar da manhã

o ônibus deslizava estrada afora

um velho tossiu no bando de trás

o motorista praguejava vem ou outra

mas ela nem ligava flutuando nas brumas do passado e deslizando seu olhar pela dança imensa dos cafezais que seguiam encantados pela tarde confundidos com o despertar de outras manhãs com outras viagens com uma saudade que nem poderia ter esse nome porque trazia o passado de volta inteiro inquieto colorido pela mais perene realidade

e transformava o presente numa cadeia de acontecimentos adormecidos numa seqüência de fatos sem a menor importância

como se fosses partir

a manhã foi se despedaçando numa chuvinha implicante de cortar o coração

o dia não nasceu como todos os outros dias com seus cheiros e barulhos

foi se desmanchando em pouca água começando num fiapo de luz cinzenta que se colava às pernas dela que sentiam desde os pés o frio do chão e carregavam também essa cor que nem chega a ser uma cor que é só um contraste na paisagem e no recorte dos prédios

ela olhou a mochila no chão e a claridade néon da estação refletida na brecha opaca dos vidros

lá fora a cidade apenas começava a acordar estraçalhada por um enorme tédio

um tédio aveludado que envolvia os carros que passavam as roupas das pessoas apressadas as bicicletas do meninos que iam para a escola

um tédio cinzento se espalhava pelas coisas como fumaça circulando entre cada uma das formas que ela via com um halo de tristeza

não a tristeza triste das coisas acontecidas dos fatos desagradáveis que cada um de nós traz escondido ou não dentro do peito mas uma tristeza cansada de existir uma tristeza de garoa de mais um dia de tantas voltas que o mundo dá e sempre estamos enfim numa estação qualquer mesmo que seja dentro da sala da casa da gente e nunca nada

e esse dia que começou escorrendo dentro da chuva mansa é só mais um dia banal como os outros e as pessoas que passam são importunas e semelhantes à qualquer outra pessoa mundo a fora mundo a dentro

e a mochila não tem qualquer sabor de aventura é só um lugar para se colocar coisas que também pouco importam que se leve ou traga e esse dia é apenas


corte num pouco de generosidade

enquanto escrevo compulsiva e louca como se esse fosse o único modo de deter o tempo de sufocar a corrida das horas ele calmamente faz palavras cruzadas sentado perto de mim

reparo em seu pé direito que ritmadamente marca talvez as notas de uma sinfonia poderosa num desespero impotente numa alienante compreensível covardia porque a vida é mesmo quem diria é de uma tal prepotência

as trepadeiras lá de fora se agarram coitadinhas no muro de arrimo do prédio da rua de trás e o zelador obstinado rega o imenso paredão como se viver fosse para sempre como se pudéssemos

escuto de pouco em pouco o suspiro do homem ao meu lado que tremula bem no fim quando vai acabando e sinto o cheiro de mais um cigarro que ele acende

quem dera a tarde se estendesse por muitos dias e noites como existe nessa exato momento em que eu o sinto perto mergulhado todo inteiro nesse universo absurdo de palavras e significados nesse silêncio compenetrado e indivisível

mas mesmo essa solidão tão compartilhada parece melhor que a solidão de se ser sozinho

porque quando a noite vem pode não ser já quando te quero tanto mas será mais tarde quem sabe quando eu já tiver desiludida e sonolenta colocado o pijama de bichinhos coloridos então teu corpo se aproximará do meu e então tudo o computador as revistas todos os livros das estantes todo o sentido das letras que se organizam quase por si mesmas tudo sucumbirá à força desse tempestuoso amor que o tempo só faz preencher de estranheza e mistério

e por que sei que o final da noite será esse me permito continuar deixando que outros pensamentos invadam descaradamente esse espaço que só nós dois habitamos outras fantasias outras vidas que talvez pudessem ter sido vividas não essa

e me sinto como se te traindo quando penso o que nunca antes pensei e me vejo vivendo numa época em que não me conhecestes e eu era de uma delicadeza tão inteiramente delicada que assustava

e porque me fazia bem a generosidade namorava qualquer menino e as vezes só por pena mesmo ou por carinho ou por não querer dizer não e esses namorados ficavam me esperando enquanto eu me decidia e tanto fazia as escolhas eram arbitrárias como só a vida pode ser um agasalho diferente ou olhos claros ou a forma como me fez o convite se o nome da rua onde eu estava no momento começa por uma das letras do meu nome

e é claro que eu era má namorava assim por namorar para poder inventar histórias e decidir destinos que nunca seriam meus só porque sim por outro motivo qualquer bobo porque havia me nascido uma espinha no rosto ou no rádio não tocava naquela hora nenhuma música do Chico Buarque

havia algo de necessariamente feio nisso tudo mas também de descoberta ou de conquista tudo isso

sempre com cuidado eu tratava de mesmo na maldade espalhar uma concentrada ternura uma dose nem que pequena de generosidade

mas tudo isso foi num tempo em que não me conhecias o tempo dos meus namorados

me incomoda te olhar tão absorto nessas palavras todas como um sábio decifrando pergaminhos e porque não me olhas não sei não sei não sei

me ergo agora e te envolvo nos meus braços que é prá parar de te trair em pensamentos para parar de ser má como fui no passado não sei ainda se sou

mas não me entendes e com um beijinho paternal me devolves ao abismo de mim mesma e a tarde escorre farta de se prender a mim e a ti

e eu te percorro lutando contra as tentações das lembranças tentando te adivinhar te perceber saber de ti só mais um pouco poder desvelar os motivos da minha paixão que me faz descontente que me deixa infeliz e louca que me faz te desejar com um desejo indecente e descarado tão indecente que me faz sentir uma ponta só de vergonha uma vontade de ser boa como as outras pessoas

passo agora a sentir uma tal compaixão pelas pessoas do mundo que não são amadas nem amam

e a primavera se esgarça e já sinto que a noite chega pois as pombas vão se ajeitando nos tijolos das paredes e há pássaros em busca de seus ninhos e pais que muito longe chamam suas crianças

na noite dessa primavera quando se sabe que um milênio.....um milênio..... então falo dele porque todos falam é assim uma bobagem....vai chegando ao fim é que gostaria de estar contigo bem perto do mar de qualquer mar de qualquer cidade e só ouvir esses sons irreproduzíveis que essas águas têm esses silêncios assustados que se atrevem entre os sons

eu queria ouvir contigo nessa noite só os silêncios entre cada som e poder enxergar os silêncios e sentir o gosto que eles têm quando a gente fecha a boca bem devagarinho lambendo uma a uma essas pontadas de ausência que a falta de som traduz

no silêncio que paira mesmo quando transito pela cidade enlouquecida aquele que fica dentro de mim esperando o momento de crescer como uma benção e inundar meu coração

não quero ouvir o jornal nacional meu amor já sei dos meninos que sofrem dos pais assustados que machucam com suas crianças do homem perdido de ciúmes que cortou a mulher em pedacinhos dos olhos fartos de lágrimas dos olhos que já nem tem lágrimas olhos bobos que já não nos servem são sem sentido ou história e de tanto ver estão rasgados por uma luz inútil uma luz absolutamente exausta de conhecer as coisas torpes do mundo

porque há meninos que não dormem e que são torturados na calada da noite e há os que passam fome ou estão doentes seja lá em que parte desse mundo se escondam e passam fome escondidos debaixo dos bancos das praças catando lixo escondido como ratos da cidade e mulheres tão velhas de sofrer por eles que choram suas lágrimas sem nenhum constrangimento já distantes de todo orgulho frente às luzes da televisão

e há a dor que de tantas e tão lúgubres maneiras se veste e tão implacavelmente ataca nossos corações aflitos que

são sim meu amor aflitos nossos corações e isso é o que vês por trás de tuas palavras cruzadas

no cruzamento delas todas elas resta uma pergunta só

uma pergunta irrespondível

são sete horas nesse exato instante e uma bola bate no pátio desse prédio

em outros lugares do mundo talvez passe um barco uma charrete uma gôndola um menino chamando um cachorro um metrô a esperança

de noite

era como no silêncio do lago de um lago qualquer de quando a noite cai

e no rosa das coisas e casas perdidas na neblina na noite quando as luzes dos outros carros passam lentamente por onde nossos olhos vão quietly you’ve said e eu me admirei que essas palavras pudessem passear no ar fechado do carro entre os vidros embaçados na noite roída pelo frio que vinha encomendado pela peregrinação do vento

o vento as folhas e os lagos apareciam brilhando na luz das estrelas

e a luz das estrelas eram cálidas eretas eram quadros na escuridão quieta da noite sem história datas horas nos ponteiros dos relógios abandonados em salas escondidas

passamos já por aqui I’ve said e minha memória queria pensar vocês meninos pensar estrelas que não essas pensar o cimento das escadas imensos e verdes gramados iluminados cafezais

mas não enquanto a noite permanecia fincada em Salesópolis essa vila cada vez mais imaginária com seus chalés envoltos em azaléias porque revestida de poesia como se existisse agora só essa cidade e noite por todo o mundo além daqui

e em nós o mundo percorria entre as teias cantos histórias nas estradas por onde nunca passara ninguém e permaneço aqui enquanto o carro segue olhando velas sombras ruído de água correndo na mais doce lembrança de outros riachos trechos de vida escorrendo por outros dedos teu rosto menino curioso no amanhecer de uma longa manhã onde de repente me percebi pequena sem lugar onde pedir apoio sem caminhos por onde prosseguir nem tréguas

e de repente teu rosto era só um rosto e há tantos e as noites perdidas de amor se sombreavam com o vento para desde sempre para sempre amortecida na neblina que envolve o mundo como uma renda feita da mais delicada piedade

o destino era um frio na estrada era uma peregrinação que nunca havíamos imaginado era um falso porto onde só ancorassem navios de há muito desaparecidos navios fantasmas e suas tripulações sem qualquer dimensão de espaço ou corpo

de onde os ventos vêm

Nana sabia agora que não havia perdido nada tudo ficara colado aos vidros da cozinha e aos batentes das portas tudo que ela pensara transparente e volátil estava aderido às coisas

inapelavelmente

camada após camada ela notava a si mesma grudada ao resto de gordura que alguém se esquecera de limpar ao pó que se espalhara na vidraça um pouco em tudo entre as coisas esquecidas que não faziam falta a ninguém nem seguiam o ritmo diário das coisas que importam

em tudo restava aderida essa pura energia sem sofrimento tédio nem remorsos que já não pertence à ninguém que se cola à alma das coisas

nas flores pequeninas da janela no chão frio nos giros no suor das danças incompletas ainda mais naquelas que nunca puderam sequer ser dançadas

na respiração da casa na tinta das paredes nas lâmpadas da sala no forro das poltronas na lareira onde às vezes cozinhava ouvindo os trens passando lá embaixo

ela permanecia nas coisas mesmo quando buscava espaços e sóis mesmo quando pensava vidas impensáveis ela continuava ali ela continuava no cheiro das noites de Lisboa e em infinitos cerejais mais ao norte no começo do verão

era necessário permanecer mas nunca um permanecer para sempre era bom caminhar pelas ladeiras entre o aconchego das casas com suas roupas penduradas nos varais das janelas tão sem intimidade essas roupas era bom parar numa esplanada e tomar um copo

acabar-se-iam as paredes águas furtadas e batentes

acabar-se-iam os gestos gastos pela poeira dos anos

mas não a terra nem os lagos menos ainda o cheiro do amor dentro da noite fria naquelas horas nas quais nem o bonde escorria pelos trilhos

e no Tejo suas lágrimas restariam diluídas cada vez mais e mais diluídas num nunca acabar mais de coisas compartilhadas com estranhas criaturas outras gentes

e os céus de Alfama guardariam seu olhar prá sempre encantado deslizando pela alma das paredes pela tinta das janelas antigas pelas portas das igrejas

era assim: o olhar restaria mesclado à água à terra à areia ao sol e finalmente ao azul inexistente de todas as tardes de todos os dias de céu profundamente azul de um azul inesquecível

e rumo à Cela a noite era tão e completamente estrelada entre o contorno escuro das cruzes do Porto adormecida entre as cruzes

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas e se entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas

esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres

o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante

tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante apenas um pouco assustador

regando as plantas Sofia foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda

ela então pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e tornou-se absorta e lenta como o silêncio noturno e não fechou as janelas

com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo

tão linda!

tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar!


desmedida distância

o avião cortaria o céu escuro rumo às estrelas

ela sabia o avião iria ultrapassar o momento da dor iria deixar para trás o frio e a chuva de São Paulo enfumaçada iria cortar a noite suavemente tecendo zonas de silêncio onde antes havia a sofreguidão de dias intermináveis e opacos

o avião iria desenhar espaços pequenos e acumulados e iria flutuar num impenetrável presente no qual seu corpo cansado poderia se abandonar

e como ela ansiava pelo momento de embarcar

segurou firma a bolsa rente ao corpo tentou fechar os olhos queria ouvir a chamada queria adivinhar no ar o átimo de instante anterior ao que anunciasse sua partida

o avião decolaria na sua loucura costumeira de desafiar a vida subiria suicida jogando-se em meio a chuva e ao vento aos raios e trovões mas ela não teria nenhum medo

sua alma deixava lentamente a aflição para se tornar leve quase nuvem

o avião abriria espaço no espaço líquido do ar e ficaria tão alto que de nada adiantaria olhar pela janela e então nesse momento ela poderia olhar quieta para dentro de si onde a saudade cavara um fosso profundo

só então ela poderia olhar prá dentro de si sem ter medo de morrer

a saudade deixara um rastro amarrado e doloroso que iria se soltando aos poucos nas nove horas em que estaria lá no alto fingindo que aquela viagem era só mais uma viagem no panorama farto de sua tresloucada vida

só lá nos espaços levemente ondulados seria possível começar a deixar de sentir a dor sem tamanho que a atormentava

e quando todas as luzes se apagassem naquele momento da madrugada em que se dorme e se acorda e em que tudo é silêncio e som longínquo de motor nesse momento sim poderia viver a saudade enlouquecida e tonta que só fazia aumentar sem a presença dele

e então só então ela poderia pensar seu homem

vê-lo por inteiro e deixar a saudade doer demais e morder seu corpo e não perdoar pois tudo agora era uma questão de muito pouco tempo ela que havia ficado tanto tempo sem ele

agora ela já podia vê-lo com seu corpo moreno seus cabelos revoltos voando no ar frio de New York seu olhar curioso ao pensar em como ela chegaria até ele

levantou-se lânguida e tremula rumo ao portão de embarque

sem pensar sem sofrer quase sem querer como se o destino a estivesse levando líquida rumo aos braços dele

era hora de embarcar


é tão bom pensar assim

estava caído na calçada os sapatos jogados no asfalto e de lábios fechados olhava sem ver o céu cinzento de março

março era um mês do qual ele não gostava nem um pouco era engraçado poder ver sem poder olhar e ter certeza das coisas agora tornadas de repente de uma tal simplicidade mesmo sem abrir os olhos

tentou pedir água e não conseguiu

sentindo um frio desconhecido subindo do cimento da calçada soube então amargurado que havia chegado a hora da sua morte

havia chegado a hora e não podia repartir isso com ninguém nem podia mais falar e assim sentir-se menos sozinho o ar em volta era morno sua pele ainda podia sentir o calor mas por quanto tempo até que tudo se transformasse num deserto gelado do mais completo vazio ? o vazio que ele sempre temera desde menino vinha caminhando ao seu encontro e ele não podia contar isso a ninguém

que estranho eram a sirene da ambulância o estar sendo colocado numa maca por mãos profissionais aquela aflição toda a sua volta e prá que?

quero só ficar aqui ouvindo os passos passando ele pensou consigo mesmo um pouco sem graça por esse pensamento que não podia ser comunicado mas que era o seu desejo queria ficar ali só ouvindo os passos passando sem nenhum som só ficar ouvindo

os outros seguiriam seus caminhos e iriam a lugares

para eles o tempo passaria e fariam coisas e reclamariam da falta de tempo e ele não seguiria mais nem iria nem faria

que difícil momento era aquele como era ruim ter que ficar vivendo só mais um pouco sem poder terminar logo com tudo aquilo porque sim nem pedir que a vida se dilatasse por mais um dia ou que por piedade se extinguisse de uma vez só

finalmente saber tudo e não poder dividir isso era solidão

que chato era isso o medo o profundo medo de saber e já não poder fazer nada a respeito

nos passos que passavam pensou ter ouvido os leves passos de sua mãe tão leves como quando ele dormia febril e ela chegava de manso

o vulto que se abaixou solícito viu apenas alguém desamparado alguém triste que acabara de morrer no mais concreto abandono

e tudo era muito escuro

e quando a noite mal se aproximava Rita ia até a varanda recolher a filharada e tocava o sino de chamar o vento três vezes

os moleques apareciam correndo de todos os lados do mundo sujos e felizes enquanto a ama acendia os lampiões

mas naquela tarde Belarmino não chegou e a noite desceu antes que Rita subisse ligeira as escadas da varanda

olhando as paredes da casa que se fechavam sobre todos ela sentiu no peito um estremecimento uma falta um vazio um mau presságio um não sei quê que não a abandonou enquanto a casa seguia seu ritmo de todos os dias

e mandou chamar Machado estivesse ele ainda errando pelos cafezais pois que viesse logo sem perder tempo

logo a noite fez-se a mais escura das noites e tochas improvisadas vasculharam a escuridão entre tulhas terreiros toneladas de café secando ao sol de cada dia mas ninguém foi encontrado

nas horas da madrugada em que nem o sono podia vir Rita ficou sentada no escuro do quarto para não incomodar ninguém e não conseguiu sequer chorar

seu peito era uma jaula apertada na qual o ar lidava para entrar de quando em quando diminuto com muito pouca serventia

fez café antes que as criadas acordassem e saiu silenciosa assim que raiou o dia

deixando –se guiar por um sofrimento que não tinha nome nem tamanho

ao pé do riacho lá estava ele seus olhos abertos num susto sem fim chamando aconchego um corpo retesado e tão frio! num corpo desistido para sempre de viver

os gestos de Rita se tornaram lentos como se dançassem no ar à procura do que não sabia bem à procura de nunca terem existido para viver aquele momento de procurar de encontrar o xale no qual embrulhar Belarmino com seu corpinho pequeno tornado escuro pela morte

mergulhada no poço sem fim da aflição Rita soube que seu colo de mãe de doze filhos era inútil ela nunca reparara nisso como toda ela era inútil e desajeitada quando seu filho morto não necessitou mais do calor que seu peito trazia de um vão amor desesperado

de total inutilidade


não tem mesmo outro remédio

e mesmo que eu não me debruce para resguardar o dia para tentar privá-lo do possível esquecimento como estou fazendo agora ele continuará se escrevendo sozinho hora após hora

e porque cada história cada seqüência de pequenos fatos por vezes tão irrisórios é única meio por preguiça ou descaso é que convém contá-las

como quem tem apenas um pouco de febre como quem levemente delira como quem quer ( e sabe ser inútil a tentativa ) driblar o destino das pequenas coisas comuns como quem se rebela só um pouco sem rebeldia porque sente que nem vale a pena nem é possível de nada adiantará

e a vida se torna um pouco mais insípida talvez porque nesses momentos algum eco distante peça à alma passagem calmo como a calma que sobrevem à mais intensa dor


no sertão da coisa mais obscura

era uma voz que soava pequeninamente trêmula como estrela prestes a se apagar

mas ficava ressoando e brilhando nas noites frias essa voz menina como um canto nascente ou um canto moribundo num sempre fino filete de som

nas noites escuras o som brilhava como um refúgio estreito um pirilampo uma fresta de festa uma greta

nas grutas escuras o céu ainda se esconde da luz excessiva nesse pequeno som tão cansado agora de ser gente

tão anônimo e triste fica o som de não ser mais nada nunca nada ser


numa esquina

ela sentiu no olhar dele um misto de medo e vergonha

e desejou estar ao seu lado por vários sinais fechados fechada em sua ilha pequena de solidão tentando destravar uma timidez que agora só fazia crescer e se atirar em seus braços

ele pediu um cigarro

ela lamentou ele havia de compreender não havia bares por perto e ela não fumava enfim ela havia deixado de fumar que pena

ela sorriu sem jeito na tarde escura e pensou pequenas bobagens envergonhadamente

desejou poder resolver todos os problemas daqueles enormes olhos azuis entregando-lhe sua casa seu carinho sua cama seu colo árido de solteira mas atravessou correndo a rua como se fosse tirar o pai da forca


Georgina tece a noite

durante anos o tempo foi passado apenas no viver a vida a cada dia

a casa se enchia de cheiros e sabores

um dia o peixe ensopado o camarão noutro dia a carne de panela o milho verde cozido o pão de minuto

as crianças cresciam alguém tinha sarampo e logo estavam todos febris e a casa girava em torno dos quartos de se contar histórias que não tinham nem fim de se fazer compotas

e chegavam mais filhos e era preciso chamar a parteira que vinha solícita com chás e poções ligeiramente afobada

por algum tempo chorava um bebe e os corredores se perfumavam com o cheiro de fraldas

nas noites compridas a sala de jantar se agitava e os mais velhos contavam suas proezas enquanto jogavam o bingo

e mais tarde após aquietar a todos ela se deitava silenciosa ouvindo a respiração de seu homem no som contínuo das ondas do mar

então rezava uma reza sem letras uma reza calma sem nenhuma palavra agradecendo sua casa cheia seus filhos todos com saúde

mas agora tudo se fora como fim de sonho bom e sozinha tão sozinha como nunca ela ficara

e já não podia programar com as empregadas o cardápio da semana nem sair às compras na manhã de sol ou esperar o leiteiro

quando o falatório das enfermeiras cessa e o hospital entra naquele torpor das madrugadas naquele silêncio que não é silêncio naquele som que para ser um som necessitaria de alguma coisa viva como um canto uma risada de criança um cheiro de feijão queimando na panela ela ainda chega com dificuldade até o vidro da janela e tímida como a menor das criancinhas vê para muito além do vulto escuro dos prédios sua primeira casa o jardim e o poste aceso na noite espalhando no ar quente de São Vicente uma cruel alegria

é tarde sempre nesse hora parece ser mais tarde do que nunca mais tarde do que deveria mesmo assim ela ainda pode ver todas aquelas janelas acesas

colando o nariz ao frio do vidro pode ouvir o tilintar dos copos e as vozes alegres dos meninos enquanto cresciam ou saiam batendo com força o portão de ferro

pés em pétalas

quando as lembranças saiam pelas ruas

e eram lembranças de folhas e terra no outono elas encontravam outras histórias que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes

e quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas

quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias atrevidos todos a perambular

tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começassem sôfregas a cavar suas próprias e temporárias histórias

eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada

eram lembranças às vezes luminosas outras nem tanto que escapavam no ar azul que acompanhava o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio

" me lembra sempre o sitio " você me disse pela tela do computador imersa na cautelosa meia estação de Londres

e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase nunca se saberá

enquanto caminhas segurando a beira do casaco no frio de Londres que ainda permanece essa luminosidade que também é minha me percorre a pele fina que surge escorregadia por baixo da saia curta

bem rente numa proximidade fresca e quase abrupta nossos corações podem cantar baixinho ou mesmo não mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros em qualquer parte do mundo em todas nas quais passeiem nossos pés

e o ar se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse blossoms surgem por todos os canteiros enquanto caminhas

tão delicadas as duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos quem sabe distraídos por sobre essas florinhas miúdas num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos

ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum com seus porteiros e ônibus

minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade teimando em se mostrar juntas com pressa tão exibidas todas de sua existência autônoma

e então vão se deixando ficar pelas esquinas onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem em frases entreouvidas nos metrôs

são não minhas mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas

como me aproprio delas descarada vadia como se eu fosse um ladrão

mesmo assim elas seguem sem dono existindo quase matéria sem consistência nenhuma tão como se nunca tivessem sido vividas

na brisa do outono é bom caminhar entre árvores aflitas e vazia do que fui e até do que serei deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer como nunca

vejo que a liberdade das lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta

num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade que projete incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas plantas e viajantes

crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo prá não chorar pois as lágrimas não choradas e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta como quem não quer ser percebido

povoados imaginários

as nuvens se acumularam nas montanhas mais ao norte e Boiçucanga deixou-se anoitecer mais devagar dengosa assim como quem não quer ou talvez nem saiba bem

em Cerquilho o sino da igreja chamou sem muita convicção a noite tangendo cansado as Ave - Marias

Ondina sentiu uma fisgada doce em seu coração e pensou bandos de andorinhas ou gaivotas sobrevoando barcos em linhas sempre horizontais

sentiu-se então um pouquinho mais só numa vida que beirava sempre o fogão de lenha as vacas que mugiam ao entardecer no pasto próximo

a noite existia em Cerquilho em tachos de polenta postos ao relento e nas vozes chamando crianças

no curral uma vaca paria lenta ritmadamente

Boiçucanga ao mesmo tempo procurava sem saber o aconchego da noite

seus homens nos barcos em seus pequenos remansos de areia onde meninos ainda brincavam

as vacas mugiram longe no Dorighelo e ela ouviu Terê fechando a porta da sala

na bruma indefinida e crua feita só de estrelas e roncos distantes de caminhões passando na estrada para Tietê ela pode perceber que o mundo penetrava pela janela e viu flores roxas nascendo em desalinho pelo quintal afora até tocar a areia longa e mais prá longe o fundo mar

o sol se afogava num céu que só Boiçucanga sabia envolver em seus braços

a vida era isso Tereza fechando a porta o sol se pondo em Cerquilho e pelo mundo afora em horas tardias o sol nascendo pelo mundo todo a cada hora meia hora minuto o dia surgindo para alguém em algum lugar e ela vivendo num tempo absorto e nada absoluto que poderia ser qualquer um

num tempo de qualquer cidade de qualquer parte do mundo numa hora qualquer


quase sempre aos domingos

a feira de domingo trazia pequenos acontecimentos transparentes e ensolarados e

havia uma confiança absoluta e irrestrita vigorando no mormaço calado do meio dia

era preciso confiar na japonesa gorda do peixe nas datas de validade do frango e acreditar que a verdura não havia jamais boiado nas águas podres das enchentes

bom era poder guardar as moedas do troco sem nunca conferir perguntando pela saúde da família do feirante e outras coisas triviais

e sentar-se largada em plena rua tomando caldo de cana sem pressa enquanto o sol ia saltando por cima dos viadutos e lá embaixo na Sumaré o trânsito aumentando devagar

às vezes armar uma discussão com a moça que vende bananas só para poder levantar um pouco a voz dizendo leves desaforos

e chegar em casa e cantar Caetano e olhar a geladeira cheia com um carinho quase indecoroso


quase

ele chegou devagar e sentou-se em frente a ela

pousou as mãos no colo quietas como duas aves selvagens

ela pediu licença: havia ainda algumas coisas a fazer

ele entendia não havia problemas ficasse à vontade

ela arrumou a gaveta folheou mais uma vez a agenda

ele olhou a planta seca as luzes mortiças as paredes amareladas

desesperada ela viu por baixo da mesa os dedos dele metidos numa sandália havaiana cor de mel

ele semicerrou os olhos como se fosse dar só um cochilo

ela começou a sufocar com um calor imenso que de repente enchia seu peito

os olhos dele se abriram e um sorriso enorme e bom inundou o rosto fino

ela foi retribuir mas tropeçou no cesto de lixo e sumiu atrás da mesa


que desespero Meu Deus!

o ônibus corria na névoa da cidade embalado por uma música esquisita enquanto Inês reclinava o banco e olhava distraída a paisagem cinzenta

pessoas corriam e se abrigavam da garoa pesada pessoas tão pequeninas como aquelas de desenho de animação como as que imaginava morando dentro do rádio de quando era pequena

suas lágrimas teimavam em sair e ela apertou ainda mais os olhos

tudo era inacreditável no inverno a cidade ficava como que possuída por uma luz irreal e difusa como se tudo não acontecesse de fato como se cada dia vivido fosse mesmo para ser assim totalmente completo em sua total desnecessidade

tudo ficava escuro dentro e fora era uma escuridão cinzenta e meio impessoal como se nossas vidas fossem insignificantes e arbitrárias

sendo assim Inês deixava-se ficar com o vazio invernal e cinzento percorrendo seu corpo jovem a procura de espaços onde o tédio se instalasse sem nenhuma emoção

e o vento derrubava as lembranças uma a uma aos seus pés lembranças que chegavam sem mistérios sem tampouco terem sido convidadas

por trás dos seus olhos surgiam um a um os momentos de sua infância tão inexpressivos todos e cobertos pela geada do esquecimento

Inês a princípio lutou contra essas imagens que sempre vinham cercadas de tristeza era uma tristeza sem motivos uma tristeza apenas reservada às coisas que passaram e não voltam mais

em Orlândia as laranjeiras estavam carregadas ela pensou sem querer e bastou que esse traço de pensamento traiçoeiro chegasse sem aviso para que sua alma menina voltasse a desejar insensatamente com um desejo insano próprio do inverno poder voltar atrás

era julho em sua alma e ventos distantes de dias azuis teimavam em permanecer desmanchando seus cabelos

sem querer viu sua avó perto do fogão cortando a couve com seu coque pequeno e seu vestido de flores miúdas

e sua avó arrumou um pouco os óculos olhando curiosa sua neta que surgira de repente

era julho e a cozinha era grande e boa com a chaleira enchendo a casa de vapor e um cheiro amigo de bolo de fubá permanecia no ar como um presente


quem eram eles

como seria possível contar?

os olhos curiosos esperavam atrás dos óculos

ela ia explicar mas então um mundo de lembranças recortes cheiros sons e palavras com pedidos e medos e sustos e intensos desesperos e horas felizes ficaram bailando no ar em torno e ela quase podia agarrá-los com uma só mão de tão materiais que eram

as chuvas de verão e o calor bom do verão e toda a sua insensatez e as mangas batendo nos galhos e depois no chão e de novo tudo e a cozinha e gritos e cores e dores e medos os terríveis medo da escuridão comendo em silêncio as paredes depois que todos dormiam e a morte rastejando atenta pelos quartos farejando perseguindo a morte das coisas todas que ela amara que ela amava ainda

a morte

ela voltou a olhar os olhos que esperavam não havia pressa neles só um brilho indagador

como contar?

ai! que a tarde seguia lenta e em algum lugar desperdiçava suas horas sem nenhuma pressa

sem nem fechar os olhos ela viu a sexta-feira caminhando solene para o abismo com suas vestes de seda vermelha na moldura do horizonte

um raio rasgou o céu sobre o mar

delicadamente

quem era ela?

um punhado de

não

um momento

nada

ela olhou suas mãos queimadas pelo sol as unhas curtas suas pernas fortes seus pés acostumados a percorrer longas distâncias

sim isso era ela sentada um instante antes de se abandonar à brisa morna da tarde num bar qualquer à beira mar tentando se explicar a um desconhecido que sorria para ela agora como se

um desconhecido que parecia já saber dela e de sua vida sem ouvir palavra nenhuma um homem que parecia ter lido no ar seus pensamentos espalhados

nesse instante Vera percebeu que as palavras mesmo as que iam sendo pensadas não permaneciam mais que um segundo no ar iam se desfazendo com o vento que se encarregava de jogá-las fora e longe como convém às palavras

ao léu

e era engraçado vê-las se desmanchando primeiro na areia depois mais alto no ar iluminado e também nas gotinhas brilhantes que cada onda deixava no ar

então ela se viu desejando uma noite pesada sem sonhos na qual ela também pudesse morrer se desmanchar e renascer outra com o sol

os olhos por trás dos óculos já sabiam: ela seria dele


receita de sábado à tarde

porque talvez o sábado seja um dia insípido saio recolhendo a poesia espalhada nas coisas do mundo enquanto vou ao mercado

e pelas ruas como lixeiro por infinitas calçadas eu trago objetos atrevidos que me saltaram aos olhos exigindo serem percebidos

não eu não invento nada disso as coisas se atropelam em sua tranqüilidade e se atravessam no caminho que percorro às vezes até com fastio

não é minha culpa se trago umas e deixo outras à mercê da própria sorte pois mesmo seres inanimados sentem a passagem dos meus passos e avançam cheios de si

exausta de caminhar e de prestar tanta atenção ao que ocorre em meu caminho passo a recolher a poesia solta nas gavetas da cozinha com suas colheres facas garfos conchas

essas coisas delicadas e prosaicas também pedem aconchego e guarita

tão indefesas e tontas são agora que me enchem os olhos de lágrimas como se fossem pessoas pequeninas pedindo colo

a vida nessa casa ganha então uma desmedida fartura com as coisas saindo de seus cantos e navegando no ar translúcido da tarde

apenas cerro os vidros para que não se percam além das paredes para que eu não as perca de vista porque é bonito olhá-las enquanto dançam livres de sua rotina diária

e depois quando se cansam regressam aos seus lugares de origem e já a noite vem e elas passam a existir novamente como coisas de todo o dia

mas é nessa hora então que uma enorme compaixão toma conta de mim e passo a armazená-las também nas palavras como arrumo as verduras e frutas na geladeira

uma a uma com toda a delicadeza

são tantos os que se foram!

ele sentiu a noite chegando na gritaria das galinhas procurando os galhos altos das mangueiras

e percebeu que o sol já se fora quando chegou à varanda e sentiu o vento frio do anoitecer

soube assim que estava irremediavelmente perdido

então caminhou até a porta e apoiou o rosto no batente áspero

a noite trouxe grilos e sons longínquos de pássaros chegando apressados aos ninhos

um gavião papa passarinhos gritou no alto da montanha

apurando seus ouvidos ele pressentiu o namoro dos sapos na lagoa fria do pasto

o silêncio cresceu nos sons do mato que aumentavam

bateu nele uma saudade que não cabia no peito

em algum lugar tocavam as ave-marias

em algum lugar onde agora ele jamais estaria

olhou sem ver os telhados das casas dos sítios próximos e soube que Dona Augusta talhava o queijo e que Seu Rico tomava seu bom copo de vinho esperando a polenta frita

soube que na casa deles as meninas ligeiras temperavam a salada

soube porque era assim sempre fora assim

o cheiro do limão espremido subiria pelas paredes da sala

Dona Ondina serviria os pratos de seus netos um a um

a sopa fumegante o fubá a couve rasgada os pedaços de linguiça caseira

as vacas mugiriam no curral lenta repetidamente

na cidade as luzes se acenderiam com método de muitas em muitas comadres tão pequeninas

então ele não ouviu dentro de si o chamado da janta e não sentiu o cheiro forte do limão no tempero da alface

nem colocou sal nos tomates cortados ao meio

ele estava para sempre perdido

de si tinham partido todos

não sobraram vozes risos nem o canto de sua mulher espantando com incenso os fantasmas da casa

não haveria mais o cheiro do café ao amanhecer nem o crepitar das achas no fogão de lenha

não haveria o choro das crianças

nem haveria a enxada ou os campos prá carpir

respirou fundo mas o ar não veio

dentro dele o medo se enroscou feito urutu vinda do cafezal

no silêncio de depois pôde ver saída da escuridão que adivinhava

sua mãe menina que lhe sorria


sempre assim

não era possível ele pensou nem era justo não podia ser

com dificuldade buscou chegar à janela

a cidade seguia na rotina das manhãs como se ele não estivesse ali olhando por trás dos vidros os carrinhos de feira

os barulhos de sempre como eram tantos os sons do dia começando

um sol espesso ferino

meu Deus então mas o quê?

o quadrado da janela foi sumindo mas não era hora

era muito cedo ainda!

sentiu no ar parado um tom de folhas caindo

devia ser brincadeira

um enorme frio foi se ocupando dos móveis

então seu Matias foi despencando devagar suspenso num desejo imenso de ficar

mas o mundo já era uma sombra distante recortada no vão da porta onde o sol esturricava a tinta que ele não podia mais ver


encontro

o olhar topou com a moça parada no ponto de ônibus

num gesto atrevido atravessou a rua ignorando os carros chegando tão junto dela que ela assustada recuou um passo

ele reparou em seus brincos vermelhos seus cabelos soltos sua boca pintada de batom

ela viu seus pés descalços sua bermuda suja seus dentes da frente partidos seus olhos verdes que enfrentavam o mundo com completo despudor

ele ia falar mas a voz não veio

ela ia fugir e não conseguiu

o tempo criou entre eles um hiato impossível longo arriscado

então ela viu seu ônibus surgindo na curva cinza da rua e subiu aflita

pela vidraça ainda olhou o rosto dele queimado pelo sol com aqueles olhos que a perseguiriam enfim para sempre

e a mão que muito lenta desenhava no ar um adeus


no meio do vasto mundo

seu olhar sobre as casas se escondia um pouco entre a gola do casaco e a aba do chapéu e a tarde era como uma criança um pouco malvada que teimava tonta que era em não escurecer vez

tudo estava mergulhando devagar numa irrealidade sem fim e Natália olhava os olhinhos amarelos das janelas que saltavam das casas de pedra

ali na Escócia era assim mesmo ela sabia desde pequena pelos livros havia gaitas de fole e homens tocando gaitas de fole em imensidões tão geladas com aquelas saias pregueadas

e essa aldeia vista agora era ela tinha certeza disso como alguma outra que ela não conheceria e que devia existir assim semelhante como só poderiam ser duas meninas gêmeas pois o mundo era assim simultâneo e opressivo em sua variedade e mesmice

e os carros e os ônibus passariam por certo em algum lugar da Terra não ali e o Brasil era quase uma temperatura dentro do seu corpo e se afirmava no lusco fusco de buzinas e faróis como um lugar talvez onde ela nunca houvesse estado num lugar fixado por conjecturas em algum canto perdido da sua pele

havia um vento sim mas devia vir de longe de algum lugar secreto de onde viria mesmo esse vento ? ela pensou um pensamento um pouco solitário que logo se deixou girar no ar sumindo sem nenhuma importância na bruma da noite

mas não havia bruma na noite essa era só uma forma de tentar dizer o que não podia ser dito que só havia essa cidade sim por onde ela passava como se somente naquele instante o mundo fosse real e ali era só um pequenino povoado solto no meio do mundo

agora uma flauta seria talvez um oboé prolongando no ar um som que era quase um desenho traçando-se solto no oxigênio líquido do tempo

ela estava chegando quase no final de uma rua iluminada com essas luzes pequeninas que quase poderia ser uma caixinha de música ou uma música até mesmo um quadro obscurecido pela sutil passagem das horas

e no garoto na bicicleta com seu cachecol de franjas escuras ela pensou ver um velho amigo mas não ela não havia visto ninguém era só um menino numa bicicleta chegando em sua casa ou em outra casa qualquer

em qualquer casa sim estaria sendo esperado mas era esse um tipo de espera como aquela de passar o tempo falando do tempo e de outras coisas banais

que sorte ele tinha por poder chegar na sua própria casa e ela não

para ela era o frio era o outro lado do lado de lá

no outro lado do lado de lá era mais um verão e vozes familiares que ela não podia escutar naquela lonjura de Deus meu onde havia se metido

um pouco disso varreu seus olhos numa melancolia passageira

talvez num canto distante algo indefinível ficou escondido pelas sombras que pouco a pouco bem de manso vieram povoar a terra pouco a pouco como seus passos agora um pouco mais aflitos do que antes e suas botas esmagando distraídas as folhas secas das calçadas pudessem ser ouvidos à distância


enquanto o dia se apruma

Dona Rosália sente a sandália nova apertando um pouco o dedo mindinho mas agora não dá tempo de trocar o sapato

toda aquela roupa por lavar e a máquina que

Rosália não quer acreditar a máquina paira um pouco acima do chão mas tão pouco que ela tem que se agachar e passar por baixo de tudo a vassoura de piaçava

o fio elétrico dá trabalho brincando no ar até encontrar a tomada e fica a se mover numa dança inquieta e lerda de um lado a outro da lavanderia enquanto Rosália tenta segurar o sabão em pó que esvoaça e brilha solto no ar etéreo do outono

as roupas maiores se deixam levar lentas traçando caminhos curvos pela cozinha enquanto as cuecas e as meias já estão quase chegando na sala

Dona Rosália dispara na direção da porta a tempo de ver todos os seus lençóis brancos e limpos de morrer saírem bailando em desordem pela Madalena afora


enquanto Rute se esquece

e todos os mares do mundo rastejando por praias desertas enquanto a noite anoitece

em pequenas cidades ruas se acendem de repente espantando o medo da morte e os fantasmas

em todas as pequenas cidades

em sua sala ela tateia no escuro os óculos e arrasta os chinelos pelos tapetes macios

é muito tarde

tarde prá tudo

prá qualquer coisa tão impossível mais agora ainda do que antes

o tempo tardio corre por sua pele desliza suave como um bandido como um amante que antes odeia que ama

e tudo que restou de sua vida precária e limitada cavalga por seus ombros cansados e sussurra dor em seus ouvidos

ela escuta atenta o tempo mas não o ouve passar

a escuridão agora é menos escura por onde vai caminhando

a distância entre as portas é tão grande agora enquanto os anos aumentam até que o dia se extingue numa doçura mansa que já nem é

estendendo a mão para afastar as cortinas ela pode ver uma réstia de noite entrando azul aos seus pés

parece ter visto uma pequena estrela firmando-se entre seus dedos mas não pode ter certeza


Gabriela olha o dia

quando abriu os olhos Gabriela viu o longo domingo azul sentado à sua espera aos pés da cama

um domingo como uma gota que a observava calado como convém a um dia assim importante

mesmo deitada de lado com os dois olhos fechados ela podia vê-lo com as pernas cruzadas como um perfeito cavalheiro

rendeu-se então àquele fato iminente: precisava se levantar

o domingo sorriu então um sorriso pálido e se afastou educado e discreto enquanto ela se vestia

quando abriu as janelas a luz deslumbrante da primavera bateu em seus olhos como um chicote era luz demais era uma luminosidade quase insuportável para um dia como aquele e foi só isso que naquela hora ela pensou

depois sentou-se à varanda e sem ter o que fazer começou a tirar de seus pensamentos delicada menina que era suas melhores lembranças aquelas das quais nem mais se lembrava tão haviam se entranhado na doce calma do seu peito

e era preciso que começasse logo que iniciasse longa e delicadamente seu domingo luminoso

a dor já nem poderia existir e por causa disso ela cantava baixinho velhas canções de ninar enquanto trabalhava

canções que vinham se espremendo alvoroçadas pelas curvas do seu corpo e depois quando ganhavam o ar límpido desse dia inesquecível disparavam mundo afora livres por fim da tristeza de existir assim aprisionadas causavam só um pouco de medo

cadela recém parida ela era que não podia mais se lamber

a alma tremia pequenina agora posta assim em suas mãos

ela olhou encantada nunca havia pensado era uma coisinha miúda essa alma como Gabriela às vezes imaginava em seus pensamentos de nuvem

com medo que sua alma voasse pela janela tão levezinha que era enroscou-se feito concha no parapeito de ferro

essa espera que ela agora inventara era uma agonia gostosa como um afago jamais recebido

isso ela não conhecera em sua vida solitária era uma sensação que ela havia precisado inventar

ventava um pouco foi depois que ela percebeu pois as roupas do varal da vizinha batiam alegres nos vidros de correr quase querendo voar

e nesse vento domingueiro que também não sabia de si mesmo ventando ela foi lançando uma a uma as pétalas de sua alma

devagar para que não se ferissem no vôo

lá pelo meio da tarde ( que ela soube que era assim porque o silêncio do domingo ficou ainda maior e se ouvia apenas no apartamento de baixo um programa de auditório na TV) quase todo o seu trabalho já estava terminado

as coisas de sua vida haviam partido lindas em revoada um pouco embaraçadas com a súbita liberdade em suas atrapalhadas vidas de cor

então Gabriela tornou a colocar sua alma no lugar bem guardada junto ao coração e tão leve agora de tudo

sorrindo constatou a ausência completa de qualquer mágoa a inexistência de saudades o vazio absoluto

faltava ainda alguma coisa a fazer mas ela não sabia

lembrou-se de uma rua de uma casa de uma roseira pendurada no terraço das flores do limão quando mal raiava o dia dos trens que passavam velozes antes que a noite caísse

da dor aguda do amor

enrolou-se um pouco mais no parapeito da varanda para se proteger do nada

um sino tocou as ave-marias e um cachorro uivou longe se abismando da noite que vinha chegando delicada

ouviu alguém que cantava e a chuva escorregando nas janelas imaginárias da sua infância

uma estranha felicidade tomou conta do mundo e Gabriela ouvindo a cantoria dos pássaros em busca do ninho soube que havia chegado a hora

foi se sentindo lentamente brilho no ar quente que se insinuava de algum lugar e já não tinha nenhum medo

lançada à escuridão pespontada aqui e lá por vitrôs iluminados e faróis dos carros na avenida percebeu-se em pleno ar misturada aos grilos da noite ao orvalho e ao enorme silêncio que tudo por fim revelava

sorrindo bem de leve cumprimentou a morte que vinha vindo envergonhada e constrangida como uma velha amiga que fora chamada às pressas e sem nenhum aviso


Lili observa o fax

e fica um instante parada entre o filtro e o xerox

em volta desse quadro de escritório o espaço se tinge de uma incredulidade rósea e distante enquanto que ao longe na Mutinga canta um galo

o fax aberto está ali como um cadáver abandonado sobre a mesa escancarado aos olhos curiosos envolto naquela estática absurda que só a morte traz

o fone deitado de costas lembra uma criancinha largada em desamparo numa cama qualquer de hospital

Lili observa a cena e pensa nas suas roupas penduradas no armário de seu apartamento

e não quer o som do fax no desalento da tarde pois um imenso feriado se aproxima e ela fará as unhas dos pés e das mãos e vai tingir os cabelos daquela cor estranha que só o namorado dela parece gostar

enquanto olha o fax com seu olhar de mormaço Lili sonha pequenas bobagens e delicadas sem-vergonhices


manhã na Dr. Arnaldo

pelas frestas da minha vida vejo ainda teu corpo cansado olhando longe a calçada teu vulto tão magro nessas distâncias que seu olhar percorria quase sem acreditar

quem dera nunca mais me lembrasse de ti quem dera nunca estivesse ficado ali parada na banca de jornais às sete da manhã olhando a capa dos Caros Amigos

o Emílio Ribas é só um ponto obscuro na claridade do dia e é para lá que precisas ir então te ensino e tudo bem

teu filho arde em febre em teus braços chorando baixinho prá não incomodar e eu te vejo ir andando depois depressa sem desgrudar teus olhos dos dele falando baixo sorrindo acalentando protegendo daquela dor traiçoeira como podes

estou ainda parada e o tempo suspende suas garras de mim lançando na avenida cinzenta uma agonia definitiva

duro demais é viver e sabes disso melhor do que eu porque enquanto caminhas meus olhos seguem em ti sem sossego

e os teus olhos se prolongam para muito além de sustos e caminhadas fixando nas pupilas escancaradas do teu filho o primitivo medo da morte o instinto agudo da mais difícil sobrevivência


na atmosfera da casa

e vovó se pôs a costurar palavras sentada perto da janela

alinhavava casas de telhados azuis a barcos branquinhos cosendo com linhas de todas as cores

mesmo enquanto dormia vovó sonhava com palavras e cores das linhas que usaria para uni-las

vovó usando palavras rendadas perfume com renda de bilro com rendas meninas e outras palavras elegantemente tecidas

às vezes tinha que usar linhas duras como metal com elas prendia a morte em cestinhos bem fechados e a doença em quartinhos de crochê

quando não bordava vovó ligava as palavras no ar da sala de modo que suas paredes e depois delas o ar pleno do meio dia se fartavam de versinhos à deriva ligados por linhas invisíveis remendados ao sabor de suas lembranças como colchas de retalho

vovó sentada ao sol de inverno da tarde podia então reviver sua vida só de olhar as palavras que brincavam pelo ar

e quando eu sua neta bulia com uma frase ou outra separava ou juntava as letras criando novas histórias só então vovó sorria

_ah! Noninha ela dizia ah! Noninha!


na lentidão da avenida

de tudo ela vinha se esquecendo e no começo era engraçado se perguntar que dia era hoje o que mesmo que ela precisava fazer amanhã e coisas prosaicas assim

mas às vezes isso podia se tornar assustador como quando a campainha tocava e ela não podia sequer imaginar quem poderia ser

ou como naquela manhã não conseguir saber onde estariam os bancos que se espalhavam nesse caminho tão diariamente percorrido e depois lembrar que não não havia bancos por essas ruas nem nunca houvera bancos pelas calçadas dessa cidade

havia sim bancos à beira mar no mar de quando ela era menina e se podia ficar à tardinha olhando as velas sem pressa

num tempo onde nada parecia ter urgência e o tempo ficava sentado junto dela olhando também ele o horizonte raiado de azul

com a idade as distâncias se tornavam compridas tão compridas

mas não havia bancos decerto porque prefeitos não envelheciam nem suas mães nem irmãs ninguém de suas famílias

as crianças meninas pulavam amarelinha na manhã enlouquecida pelo sol e Perdizes misturava o silêncio do domingo aos latidos dos cachorros

enquanto andava ela sentiu nos pés calçados a areia molhada e fria e a sensação de pisar em conchas

um barco vazio balançava na água morna e uma vontade grande de chorar

ouviu com clareza sua mãe chamando longe lá no fim da praia perto da ilha Porchat

ah! então era domingo!

e ela sentiu cheiro de peixe assado e salada de batata

era um velho e bom domingo a beira mar

como ela pudera se esquecer

era domingo e havia bolo de chocolate de sobremesa


não é possível morrer!

então ela se sentou num canto no canto mais oculto da casa como um canto primeiro antes mesmo de nascer quando tudo que se sabe da vida e do mundo são confusos sentimentos arrepios e uma indiscreta surpresa

sentada ali bem quieta ela pouco percebeu dos passar das horas e mergulhou num mundo sem palavras

um frio esparso uma bruma nas manhãs de infância de uma infância qualquer

e então ela já era pequena tão pequena

apenas um ponto na manhã de sua tristeza

nem havia como chorar

sua respiração deixou de respirar muito aos poucos

e cessou


situações inexplicáveis

era na verdade um mundo muito pequenino porém de uma vastidão

cabia em qualquer canto onde Marina o quisesse e seus seres de espécies variadas como formigas aranhas ou tatus bolinha eram tão dispensáveis e anônimos que quase nos dava dó

Marina organizava montanhas e mudava lagos de lugar com a mesma naturalidade com que escovava seus dentes cada manhã

e destinava a cada um de seus habitantes suas atribuições ora complicadíssimas ora simples como que

também provocava às vezes quando a monotonia do mundo era muito grande pequeninas e avassaladoras tempestades maremotos de perder o fôlego e incontáveis furacões

e via impressionada como as formigas e os outros bichos se agarravam às folhas secas para não serem levados pelas águas coitadinhos

Marina conforme o dia tomada de repentina bondade salvava a todos com tal simplicidade e urgência que logo estavam novamente postos a reconstruir o mundo

era como se o sol voltasse a brilhar forte e a manhã ressuscitasse nova e luminosa

mas hoje havia um fato chato um pequeno bicho morrera nos tumultos que se seguiram o que não era raro nas grandes tempestades e ela pôs-se a olhá-lo com sua curiosidade de menina

mas então e isso fugiu totalmente ao seu controle seu pequeno mundo de repente ficou muito escuro como se aquele bicho morto aquela forma lívida estendida bem à sua frente sem qualquer perspectiva lembrasse alguma coisa que ela ainda desconhecia como um frio na espinha uma súbita falta de ar ou uma vontade grande grande mesmo de chorar


toda a candura da morte

Vó Rita viu da varanda Amélio passar correndo vermelho de sol e de grito

Amélio girando no ar um chicote invisível

e viu a vida morando nele num nunca acabar de fartura e delícia viu a imensa vida ensolarada

olhou na direção da tulha movida por escuros pressentimentos

Amélio na janela mais alta golpeava seres imaginários

num átimo de segundo num átimo seus olhares se encontraram no ar quente da tarde de Nuporanga

e o olhar dele rindo viu no negro olhar dela a oculta sombra da morte que ela mesma não via

Tio Amélio morreu menino menino

Vó Rita sentou-se por anos sem fim à varanda

calada

anos e anos sempre calada

quando tio Amélio passa correndo afogueado pelo sol de tanto tempo ela ainda tenta impedir

mas não vem o gesto e a voz não sai

Vó Rita apenas olha na direção da janela onde o olhar de tio Amélio criança está sempre sorrindo

um segundo antes da queda

foram-se varanda tulha e gritos de criança

Vó Rita e tio Amélio lá estão vivendo ainda eternidade afora esse instante um segundo antes do fim


travessia

de esguelha ela olhava o cego parado no cruzamento

olhava o cego

olhava o sinal

fingia estar distraída mas mesmo com os olhos fechados via o cego com sua bengala em sua irritante imobilidade

quando o sinal de pedestres se abriu ela chegou perto dele como uma gata e enlaçou seu braço com uma familiaridade esquecida

ele sentiu a mão quente no braço e um calor bom veio se espalhar por seu corpo todo como há muito não

a travessia tornou-se viagem campo mar chegada porto nenhum

e riram parados na porta da padaria

interminavelmente


um pouco de hera no telhado da varanda

minha vida às vezes fica como atravessar muitos países num só dia falar várias línguas olhar pela primeira vez distantes paisagens

minha vida essa vida de todo dia e de quase sempre é como dormir e acordar muitas vezes dizer coisas contraditórias sonhar verdades diversas

passo pelas coisas e pelos outros sem deixar marcas quem sabe deixando marcas descabidas impressentidas que se dispersam por essas estradas que sempre me colocam de volta às mesmas plantas aos mesmos filhos à mesma Gigi que me observa sonolenta

e para Gigi só existe o mundo desse apartamento suas flores perfumadas seus potes de água pendurados sua areia que eu troco cada dia sua ração de peixe e ossos


velando por tia Veva

o frio subia do chão como navalha e o vulto deitado no caixão estava só

só e frio

só e imóvel

para sempre imóvel

deitada no banco gelado a menina se encolheu mais um pouco com nojo

por que justo ela tinha ficado ali?

então pensou dormir e sonhar com coisas prosaicas mas não conseguiu

ficou a vigiar a morta com o terror profundo de perceber uma respiração ou talvez um movimento que ela não pudesse evitar uma vela que de súbito se apagasse

e se sua tia resolvesse enfim se levantar voltar da morte sair do caixão desajeitadamente jogando longe as rosas que a cobriam pedindo ajuda para descer na mesa alta onde fora colocada tirando o pó do conjunto de lã tão novo?

pensando em tudo isso a menina velou a noite toda em silêncio olhando a morta com olhos ardentes e cheios de fantasmas

só na claridade do dia quando por fim todos chegaram foi que ela notou aquela rosa vermelha que ela não tinha notado tão fresca e orvalhada era a rosa presa entre as mãos entrelaçadas de sua tia que parecia sorrir um pouco mais que à noite

uma solidão danada de agüentar uma solidão sem explicações tomou conta dela

uma solidão de doer muito e doer sem remédio

ela não queria morrer nunca mas não queria mesmo!


vez por outra quando você parte

quando a última fresta da porta se fechou ela não conseguiu pensar

seu olhar procurou por pequenos espaços entre a madeira por uma luz distante que saltasse na ingratidão grossa da noite

examinou a fechadura

olhou o céu que escurecia e escurecia e era um céu de tempestade mas não deu um passo

no meio da chuva fria que começava ela lembrou dele ainda bebê e era uma criança tão linda tão forte com suas bochechas vermelhas

e reviveu os passos os tombos o choro no meio da noite as febres e todas as aflições de quando ele quase morreu

mas ele não tinha morrido tinha se distanciado e tanto que ela não sabia mais do seu riso nem do seu rosto quando sério

ele era um outro que ela não conhecia e que agora estava ali fechado atrás das grossas portas como um bandido e que nesse momento subindo as escadas carregando a própria mala estaria atônito assustado como um pássaro de asas prá sempre partidas

um pássaro sem chances

no fundo do seu corpo naquele espaço solitário e lúgubre que só as mães conhecem ela sentiu uma fisgada fria e uma dor ainda desconhecidas

e um cansaço triste cinzento e definitivo como a própria vida


viagem

ele ergueu os olhos e viu New York iluminada para o Natal

fechou o sobretudo segurando entre as mãos aquecidas pelas luvas sua mala à tiracolo

dali a algumas horas o avião ergueria vôo rumo à casa à sua terra aquecida pelo sol e rumo aos braços dela

ela olhou a noite escura o céu que os relâmpagos cobriam de fora a fora e teve medo

sem saber se tão longe dali chovia ela limpou as lágrimas e procurou sorrir

perto do calor do corpo dele quando teria medo?

sentou-se frente ao computador e conectou - se às escalas dos vôos

passaria assim sua última noite sem ele enquanto passageiros subiriam em todas as conexões do mundo em rotas cruzadas perfeitas ou adversas quem sabe?

mas não ele ele seguraria com displicência sua bagagem de mão e subiria no avião sem olhar prá trás

quando a luz do dia entrasse em seu quarto ela saberia que ele já tomara seu café a bordo e que possuído por um vago desespero já tirara o cachecol sobretudo e gravata

ele olhou pela última vez o aeroporto Kennedy e a viu frente ao computador do quarto com seu pijama branco e seus chinelinhos de urso


Marta vê o novo dia

no frio da cozinha na obscuridade da manhã Marta percebeu uma xícara passando solene na altura da sua boca

e talheres que boiavam no ar turvo do outono em posições e alturas tão variadas que o espaço se talhou entre madeira e metal

Beto pendurado na janela olhava as coisas fora de seus lugares como se aquela fosse uma manhã qualquer

e o fogo se acendeu e a água logo começou a ferver alguns dedos suspensa do fundo da chaleira

e o pó de café se espalhava pelo ar em torno do coador como um desenho

sentada à mesa Marta teve certa dificuldade em fazer parar o requeijão na torrada a torrada no prato o prato na mesa a mesa no chão

só quando chegou a hora de sair foi que ela percebeu o apartamento todo navegando entre portas e paredes e não pôde deixar de sorrir ao ver passar sua escova de dentes dançando entre as obras completas de Machado de Assis


vasto mundo

em Cela a noite ficou gelada e imensa de estrelas no céu recortado pela silhueta escura dos montes

o D 'Ouro deixou-se levar pesado e lento num silêncio iluminado

de sua cozinha ela sabia isso sabia o céu sabia os montes sabia o D' Ouro

ali sentada quieta junto ao fogo ela apurou os ouvidos as vacas já dormiam aquecidas pela palha e havia prenúncio de neve

mais um vazio

mais um espaço branco

Maria se ergue avivando as brasas

nessa noite a neve chegaria silenciosa e doce impedindo estradas e destinos

e ela estaria só

só em Cela

sem mais ninguém

pensou a aldeia vazia

todas as casinhas frias

e ao redor de Cela a neve e o D 'Ouro com suas águas geladas

levantou-se e a barriga cedeu fisgada pela gravidade

meu Deus seria hora nessa noite opaca?

medo da solidão em Cela dos telhados brilhando por sobre as casas de pedra vazias do céu estrelado por cima dos vultos noturnos das casas das casas de pedra nascendo do chão como se existissem ali desde que o mundo fora criado e Deus colocara com os próprios dedos como num desenho aquele rio majestoso correndo lá embaixo no vale deliciado de sombras

no escuro Maria desceu as escadas puxando a manta de lã

os animais dormiam e porão estava quente

então ela se deitou entre os animais bem devagar para não acordá-los e antes de fechar os olhos sentiu os flocos finos da neve chegando no telhado e o coração do seu bebe batendo solidário e atento dentro dela


a aflição é bem mais que um ponto

a notícia deslizou pela beirada das coisas com uma iniquidade sangrenta resvalou pelo assoalho polido entrou pelo fogão a dentro e brincou com as pontas da colcha de cama injuriou as paredes brancas e o perfume do desinfetante no banheiro espalhando pela casa toda um invisível e adocicado cheiro de sangue

um remorso tangente e fino como um corte sem nenhuma cicatriz brincou um pouco no ar perdido da sala e depois firmou-se entre batentes das portas e quadros e passou a existir por ali fincado e tonto para todo o sempre

a lua chegará prá ti

no fim da tarde logo que o sol mergulhar no mar sairemos as duas a passeio

sei que serás pequenina ainda e que o mar talvez seja só um som assustador um som entre silêncios mais amenos ou uma onda e outra dentro do teu corpo

andaremos juntas pela areia Catharina sem nada pensar e o céu irá se tingindo pouco a pouco de vermelho e depois virão devagarinho as primeiras estrelas e enquanto seguimos caminhando eu pensarei um desejo

mas pensar o que na proximidade da noite negra subindo do mar e só os respingos d' água sobre nós duas isoladas de tudo de todos

então irei só te contando histórias minúsculas sem falar porque o silêncio de tão grande abraçará nós duas num grande véu de bondade

imenso esse silencio que virá das curvas dos morros e de todas as árvores que moram escondidas no sertão e das profundezas distantes desse mar que atravessa o mundo seguirei pisando por mim e por ti conchinhas e pedras e os cães vadios nos acompanharão quietinhos porque então já estarás dormindo linda linda tão menina!

e no teu sonho que sonhos será sonharás? sem dúvida ouvirás minha voz cujo coração bate tão rente ao teu que é quase um só coração e todas as estrelas que irão aos poucos estrelando os céus desse lugar brilharão por nós

e saberás de um mundo sem palavras que pode conter peixes ares mares e verões tardios e eu te direi palavras sem corpo sem nenhuma letra cada uma todas juntas do tamanho do meu amor

e só nós duas na noite nós duas bem silenciosas como gaivotas estreladas

que silêncio enorme minha menina

ah minha menina um silêncio imenso de fazer sonhar


apenas um punhadinho

a jabuticabeira sorriu perfumada com a chegada do dia tão diversa de tudo e tão real ela olhou a brancura desse perfume por trás do véu esquisito do tempo e puxou um pouco mais a cortina

regiões planas junto às jabuticabas maduras e mangueiras latas velhas pingando uma a uma suas gotas nos troncos limosos e gatas gritando num cio sem fim eram imagens ela pensou apenas desnecessárias imagens

aquietou-se em si mesma ouvindo desde longe no passado o canto opaco da morte com os olhos cerrados tentando entender ou ao menos se conformar de que o mundo fosse assim e de que existisse o tempo que gostaria de deter como agora parar essa caminhada essa conta inexorável que palavra era essa tão assustadora inexorável ....como o tempo passando e passando dentro mesmo do seu corpo em cada célula sua nas lembranças que se esvaiam sem aviso ou despedida

e ficou atenta enquanto as paredes do quarto restavam duras cruéis e lisas na sua medíocre e sempre perene tranqüilidade

as paredes eram tão brancas que Carolina sorriu deliciada de si mesma

porque haveriam de ser assim se ela sabia que ao redor delas o mundo o vasto mundo com suas montanhas e mares e aldeias que ela jamais conheceria era inquieto farto amplo e desprotegido ?

do outro lado dali em lugares que sua imaginação fazia ferver na mais completa e absorvente ausência luzes estariam se acendendo e uma mulher chamaria uma criança naquela voz delicada que todos os pequenos sinos têm quando se lembra o que não existe quando se pensa naqueles espaços que são apenas de sonhos e da mais difusa percepção

e estaria a cada instante do seu pensamento um pouco mais escuro e um pouco mais escuro em qualquer lugar perdido nos campos de todas as cores dessa terra

e haveria também um descampado em qualquer lugar onde o sol do meio dia pediria o descanso de sombras que nem no horizonte se adivinhava e alguém muito sozinho mais bem mais que ela mesma ainda deitada na cama olharia aflito a imensidão que o calor do sol fazia tremular como marolas num oceano de impossíveis formas

esse alguém muito sozinho e ela podia vê-lo seus olhos protegendo-se do sol inclemente um vulto sério num ermo sem nenhum vento nesse deserto que ela jamais conheceria

mas pensou tão forte agora com um desespero tão grande que a solidão só aprofundava e enquanto o domingo escorria preguiçoso ela podia perceber na respiração daquele homem um sentido que se alongava um gemido mudo que só ela podia sentir uma dor tão sem remédio que ela nem podia transformar em melodia

então as paredes brancas do seu quarto se misturaram aos poucos com o ar morno daquela areia imaginária que ela jamais pisaria e seus olhos podiam agora percorrer o rosto cansado do sol inclemente quase conseguindo acariciar esse vulto perdido em seu pensamento

as cercas eram de arame farpado

foi quando ela sentiu a mão de seu pai a conduzi-la pela noite estrelada e havia tantas estrelas como nunca mais

ao longe muito longe mesmo na neblina um trem desafiava as horas lentas daquilo que nunca mais haveria de ser vivido

seu pai e ela caminhavam devagar na noite estrelada entre um ou outro latido de cães e o frio daquelas noites mora ainda em seu rosto enquanto a alma afugenta pensamentos da mais sombria desesperança pensamentos que pertencem à realidade das casas das ruas das coisas de agora das pequenas infelicidades dos atropelos diários das portas dos apartamentos das contas dos dias que correm rápido demais rumo ao abismo do tempo

seu pai e ela na infinita noite estrelada

e havia naquela época um silêncio de quintais adormecidos pela névoa e era bom passar rente às cercas deixando a mão escorregar entre os bambus levando o sereno guardado entre os fiapos da madeira

na estação perdida sempre numa neblina abismada de que o ar pudesse ser assim tão concreto tão visível tão cheio de pressentido esquecimento daqueles momentos que estavam de um modo tão fantasmagórico sendo vividos eles ficavam e entre uma conversa e outra de homens no repente mais inquietante e surpreso da madrugada a locomotiva apontava rompendo a massa líquida do ar e a escuridão que envolvia as luzes quietas da estação luzes que apenas se deixavam ficar

uma voz alguém que se despedia e depois a viagem e os campos que passavam sem tomar conhecimento de outras existências tampouco de si mesmos fincados no chão daquele mundo e os laranjais que começavam a amarelar o despertar da manhã

o ônibus deslizava estrada afora

um velho tossiu no bando de trás

o motorista praguejava vem ou outra

mas ela nem ligava flutuando nas brumas do passado e deslizando seu olhar pela dança imensa dos cafezais que seguiam encantados pela tarde confundidos com o despertar de outras manhãs com outras viagens com uma saudade que nem poderia ter esse nome porque trazia o passado de volta inteiro inquieto colorido pela mais perene realidade

e transformava o presente numa cadeia de acontecimentos adormecidos numa seqüência de fatos sem a menor importância

como se fosses partir

a manhã foi se despedaçando numa chuvinha implicante de cortar o coração

o dia não nasceu como todos os outros dias com seus cheiros e barulhos

foi se desmanchando em pouca água começando num fiapo de luz cinzenta que se colava às pernas dela que sentiam desde os pés o frio do chão e carregavam também essa cor que nem chega a ser uma cor que é só um contraste na paisagem e no recorte dos prédios

ela olhou a mochila no chão e a claridade néon da estação refletida na brecha opaca dos vidros

lá fora a cidade apenas começava a acordar estraçalhada por um enorme tédio

um tédio aveludado que envolvia os carros que passavam as roupas das pessoas apressadas as bicicletas do meninos que iam para a escola

um tédio cinzento se espalhava pelas coisas como fumaça circulando entre cada uma das formas que ela via com um halo de tristeza

não a tristeza triste das coisas acontecidas dos fatos desagradáveis que cada um de nós traz escondido ou não dentro do peito mas uma tristeza cansada de existir uma tristeza de garoa de mais um dia de tantas voltas que o mundo dá e sempre estamos enfim numa estação qualquer mesmo que seja dentro da sala da casa da gente e nunca nada

e esse dia que começou escorrendo dentro da chuva mansa é só mais um dia banal como os outros e as pessoas que passam são importunas e semelhantes à qualquer outra pessoa mundo a fora mundo a dentro

e a mochila não tem qualquer sabor de aventura é só um lugar para se colocar coisas que também pouco importam que se leve ou traga e esse dia é apenas


corte num pouco de generosidade

enquanto escrevo compulsiva e louca como se esse fosse o único modo de deter o tempo de sufocar a corrida das horas ele calmamente faz palavras cruzadas sentado perto de mim

reparo em seu pé direito que ritmadamente marca talvez as notas de uma sinfonia poderosa num desespero impotente numa alienante compreensível covardia porque a vida é mesmo quem diria é de uma tal prepotência

as trepadeiras lá de fora se agarram coitadinhas no muro de arrimo do prédio da rua de trás e o zelador obstinado rega o imenso paredão como se viver fosse para sempre como se pudéssemos

escuto de pouco em pouco o suspiro do homem ao meu lado que tremula bem no fim quando vai acabando e sinto o cheiro de mais um cigarro que ele acende

quem dera a tarde se estendesse por muitos dias e noites como existe nessa exato momento em que eu o sinto perto mergulhado todo inteiro nesse universo absurdo de palavras e significados nesse silêncio compenetrado e indivisível

mas mesmo essa solidão tão compartilhada parece melhor que a solidão de se ser sozinho

porque quando a noite vem pode não ser já quando te quero tanto mas será mais tarde quem sabe quando eu já tiver desiludida e sonolenta colocado o pijama de bichinhos coloridos então teu corpo se aproximará do meu e então tudo o computador as revistas todos os livros das estantes todo o sentido das letras que se organizam quase por si mesmas tudo sucumbirá à força desse tempestuoso amor que o tempo só faz preencher de estranheza e mistério

e por que sei que o final da noite será esse me permito continuar deixando que outros pensamentos invadam descaradamente esse espaço que só nós dois habitamos outras fantasias outras vidas que talvez pudessem ter sido vividas não essa

e me sinto como se te traindo quando penso o que nunca antes pensei e me vejo vivendo numa época em que não me conhecestes e eu era de uma delicadeza tão inteiramente delicada que assustava

e porque me fazia bem a generosidade namorava qualquer menino e as vezes só por pena mesmo ou por carinho ou por não querer dizer não e esses namorados ficavam me esperando enquanto eu me decidia e tanto fazia as escolhas eram arbitrárias como só a vida pode ser um agasalho diferente ou olhos claros ou a forma como me fez o convite se o nome da rua onde eu estava no momento começa por uma das letras do meu nome

e é claro que eu era má namorava assim por namorar para poder inventar histórias e decidir destinos que nunca seriam meus só porque sim por outro motivo qualquer bobo porque havia me nascido uma espinha no rosto ou no rádio não tocava naquela hora nenhuma música do Chico Buarque

havia algo de necessariamente feio nisso tudo mas também de descoberta ou de conquista tudo isso

sempre com cuidado eu tratava de mesmo na maldade espalhar uma concentrada ternura uma dose nem que pequena de generosidade

mas tudo isso foi num tempo em que não me conhecias o tempo dos meus namorados

me incomoda te olhar tão absorto nessas palavras todas como um sábio decifrando pergaminhos e porque não me olhas não sei não sei não sei

me ergo agora e te envolvo nos meus braços que é prá parar de te trair em pensamentos para parar de ser má como fui no passado não sei ainda se sou

mas não me entendes e com um beijinho paternal me devolves ao abismo de mim mesma e a tarde escorre farta de se prender a mim e a ti

e eu te percorro lutando contra as tentações das lembranças tentando te adivinhar te perceber saber de ti só mais um pouco poder desvelar os motivos da minha paixão que me faz descontente que me deixa infeliz e louca que me faz te desejar com um desejo indecente e descarado tão indecente que me faz sentir uma ponta só de vergonha uma vontade de ser boa como as outras pessoas

passo agora a sentir uma tal compaixão pelas pessoas do mundo que não são amadas nem amam

e a primavera se esgarça e já sinto que a noite chega pois as pombas vão se ajeitando nos tijolos das paredes e há pássaros em busca de seus ninhos e pais que muito longe chamam suas crianças

na noite dessa primavera quando se sabe que um milênio.....um milênio..... então falo dele porque todos falam é assim uma bobagem....vai chegando ao fim é que gostaria de estar contigo bem perto do mar de qualquer mar de qualquer cidade e só ouvir esses sons irreproduzíveis que essas águas têm esses silêncios assustados que se atrevem entre os sons

eu queria ouvir contigo nessa noite só os silêncios entre cada som e poder enxergar os silêncios e sentir o gosto que eles têm quando a gente fecha a boca bem devagarinho lambendo uma a uma essas pontadas de ausência que a falta de som traduz

no silêncio que paira mesmo quando transito pela cidade enlouquecida aquele que fica dentro de mim esperando o momento de crescer como uma benção e inundar meu coração

não quero ouvir o jornal nacional meu amor já sei dos meninos que sofrem dos pais assustados que machucam com suas crianças do homem perdido de ciúmes que cortou a mulher em pedacinhos dos olhos fartos de lágrimas dos olhos que já nem tem lágrimas olhos bobos que já não nos servem são sem sentido ou história e de tanto ver estão rasgados por uma luz inútil uma luz absolutamente exausta de conhecer as coisas torpes do mundo

porque há meninos que não dormem e que são torturados na calada da noite e há os que passam fome ou estão doentes seja lá em que parte desse mundo se escondam e passam fome escondidos debaixo dos bancos das praças catando lixo escondido como ratos da cidade e mulheres tão velhas de sofrer por eles que choram suas lágrimas sem nenhum constrangimento já distantes de todo orgulho frente às luzes da televisão

e há a dor que de tantas e tão lúgubres maneiras se veste e tão implacavelmente ataca nossos corações aflitos que

são sim meu amor aflitos nossos corações e isso é o que vês por trás de tuas palavras cruzadas

no cruzamento delas todas elas resta uma pergunta só

uma pergunta irrespondível

são sete horas nesse exato instante e uma bola bate no pátio desse prédio

em outros lugares do mundo talvez passe um barco uma charrete uma gôndola um menino chamando um cachorro um metrô a esperança


de noite

era como no silêncio do lago de um lago qualquer de quando a noite cai

e no rosa das coisas e casas perdidas na neblina na noite quando as luzes dos outros carros passam lentamente por onde nossos olhos vão quietly you’ve said e eu me admirei que essas palavras pudessem passear no ar fechado do carro entre os vidros embaçados na noite roída pelo frio que vinha encomendado pela peregrinação do vento

o vento as folhas e os lagos apareciam brilhando na luz das estrelas

e a luz das estrelas eram cálidas eretas eram quadros na escuridão quieta da noite sem história datas horas nos ponteiros dos relógios abandonados em salas escondidas

passamos já por aqui I’ve said e minha memória queria pensar vocês meninos pensar estrelas que não essas pensar o cimento das escadas imensos e verdes gramados iluminados cafezais

mas não enquanto a noite permanecia fincada em Salesópolis essa vila cada vez mais imaginária com seus chalés envoltos em azaléias porque revestida de poesia como se existisse agora só essa cidade e noite por todo o mundo além daqui

e em nós o mundo percorria entre as teias cantos histórias nas estradas por onde nunca passara ninguém e permaneço aqui enquanto o carro segue olhando velas sombras ruído de água correndo na mais doce lembrança de outros riachos trechos de vida escorrendo por outros dedos teu rosto menino curioso no amanhecer de uma longa manhã onde de repente me percebi pequena sem lugar onde pedir apoio sem caminhos por onde prosseguir nem tréguas

e de repente teu rosto era só um rosto e há tantos e as noites perdidas de amor se sombreavam com o vento para desde sempre para sempre amortecida na neblina que envolve o mundo como uma renda feita da mais delicada piedade

o destino era um frio na estrada era uma peregrinação que nunca havíamos imaginado era um falso porto onde só ancorassem navios de há muito desaparecidos navios fantasmas e suas tripulações sem qualquer dimensão de espaço ou corpo

de onde os ventos vêm

Nana sabia agora que não havia perdido nada tudo ficara colado aos vidros da cozinha e aos batentes das portas tudo que ela pensara transparente e volátil estava aderido às coisas

inapelavelmente

camada após camada ela notava a si mesma grudada ao resto de gordura que alguém se esquecera de limpar ao pó que se espalhara na vidraça um pouco em tudo entre as coisas esquecidas que não faziam falta a ninguém nem seguiam o ritmo diário das coisas que importam

em tudo restava aderida essa pura energia sem sofrimento tédio nem remorsos que já não pertence à ninguém que se cola à alma das coisas

nas flores pequeninas da janela no chão frio nos giros no suor das danças incompletas ainda mais naquelas que nunca puderam sequer ser dançadas

na respiração da casa na tinta das paredes nas lâmpadas da sala no forro das poltronas na lareira onde às vezes cozinhava ouvindo os trens passando lá embaixo

ela permanecia nas coisas mesmo quando buscava espaços e sóis mesmo quando pensava vidas impensáveis ela continuava ali ela continuava no cheiro das noites de Lisboa e em infinitos cerejais mais ao norte no começo do verão

era necessário permanecer mas nunca um permanecer para sempre era bom caminhar pelas ladeiras entre o aconchego das casas com suas roupas penduradas nos varais das janelas tão sem intimidade essas roupas era bom parar numa esplanada e tomar um copo

acabar-se-iam as paredes águas furtadas e batentes

acabar-se-iam os gestos gastos pela poeira dos anos

mas não a terra nem os lagos menos ainda o cheiro do amor dentro da noite fria naquelas horas nas quais nem o bonde escorria pelos trilhos

e no Tejo suas lágrimas restariam diluídas cada vez mais e mais diluídas num nunca acabar mais de coisas compartilhadas com estranhas criaturas outras gentes

e os céus de Alfama guardariam seu olhar prá sempre encantado deslizando pela alma das paredes pela tinta das janelas antigas pelas portas das igrejas

era assim: o olhar restaria mesclado à água à terra à areia ao sol e finalmente ao azul inexistente de todas as tardes de todos os dias de céu profundamente azul de um azul inesquecível

e rumo à Cela a noite era tão e completamente estrelada entre o contorno escuro das cruzes do Porto adormecida entre as cruzes

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas e se entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas

esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres

o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante

tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante apenas um pouco assustador

regando as plantas Sofia foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda

ela então pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e tornou-se absorta e lenta como o silêncio noturno e não fechou as janelas

com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo

tão linda!

tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar!


desmedida distância

o avião cortaria o céu escuro rumo às estrelas

ela sabia o avião iria ultrapassar o momento da dor iria deixar para trás o frio e a chuva de São Paulo enfumaçada iria cortar a noite suavemente tecendo zonas de silêncio onde antes havia a sofreguidão de dias intermináveis e opacos

o avião iria desenhar espaços pequenos e acumulados e iria flutuar num impenetrável presente no qual seu corpo cansado poderia se abandonar

e como ela ansiava pelo momento de embarcar

segurou firma a bolsa rente ao corpo tentou fechar os olhos queria ouvir a chamada queria adivinhar no ar o átimo de instante anterior ao que anunciasse sua partida

o avião decolaria na sua loucura costumeira de desafiar a vida subiria suicida jogando-se em meio a chuva e ao vento aos raios e trovões mas ela não teria nenhum medo

sua alma deixava lentamente a aflição para se tornar leve quase nuvem

o avião abriria espaço no espaço líquido do ar e ficaria tão alto que de nada adiantaria olhar pela janela e então nesse momento ela poderia olhar quieta para dentro de si onde a saudade cavara um fosso profundo

só então ela poderia olhar prá dentro de si sem ter medo de morrer

a saudade deixara um rastro amarrado e doloroso que iria se soltando aos poucos nas nove horas em que estaria lá no alto fingindo que aquela viagem era só mais uma viagem no panorama farto de sua tresloucada vida

só lá nos espaços levemente ondulados seria possível começar a deixar de sentir a dor sem tamanho que a atormentava

e quando todas as luzes se apagassem naquele momento da madrugada em que se dorme e se acorda e em que tudo é silêncio e som longínquo de motor nesse momento sim poderia viver a saudade enlouquecida e tonta que só fazia aumentar sem a presença dele

e então só então ela poderia pensar seu homem

vê-lo por inteiro e deixar a saudade doer demais e morder seu corpo e não perdoar pois tudo agora era uma questão de muito pouco tempo ela que havia ficado tanto tempo sem ele

agora ela já podia vê-lo com seu corpo moreno seus cabelos revoltos voando no ar frio de New York seu olhar curioso ao pensar em como ela chegaria até ele

levantou-se lânguida e tremula rumo ao portão de embarque

sem pensar sem sofrer quase sem querer como se o destino a estivesse levando líquida rumo aos braços dele

era hora de embarcar


é tão bom pensar assim

estava caído na calçada os sapatos jogados no asfalto e de lábios fechados olhava sem ver o céu cinzento de março

março era um mês do qual ele não gostava nem um pouco era engraçado poder ver sem poder olhar e ter certeza das coisas agora tornadas de repente de uma tal simplicidade mesmo sem abrir os olhos

tentou pedir água e não conseguiu

sentindo um frio desconhecido subindo do cimento da calçada soube então amargurado que havia chegado a hora da sua morte

havia chegado a hora e não podia repartir isso com ninguém nem podia mais falar e assim sentir-se menos sozinho o ar em volta era morno sua pele ainda podia sentir o calor mas por quanto tempo até que tudo se transformasse num deserto gelado do mais completo vazio ? o vazio que ele sempre temera desde menino vinha caminhando ao seu encontro e ele não podia contar isso a ninguém

que estranho eram a sirene da ambulância o estar sendo colocado numa maca por mãos profissionais aquela aflição toda a sua volta e prá que?

quero só ficar aqui ouvindo os passos passando ele pensou consigo mesmo um pouco sem graça por esse pensamento que não podia ser comunicado mas que era o seu desejo queria ficar ali só ouvindo os passos passando sem nenhum som só ficar ouvindo

os outros seguiriam seus caminhos e iriam a lugares

para eles o tempo passaria e fariam coisas e reclamariam da falta de tempo e ele não seguiria mais nem iria nem faria

que difícil momento era aquele como era ruim ter que ficar vivendo só mais um pouco sem poder terminar logo com tudo aquilo porque sim nem pedir que a vida se dilatasse por mais um dia ou que por piedade se extinguisse de uma vez só

finalmente saber tudo e não poder dividir isso era solidão

que chato era isso o medo o profundo medo de saber e já não poder fazer nada a respeito

nos passos que passavam pensou ter ouvido os leves passos de sua mãe tão leves como quando ele dormia febril e ela chegava de manso

o vulto que se abaixou solícito viu apenas alguém desamparado alguém triste que acabara de morrer no mais concreto abandono

e tudo era muito escuro

e quando a noite mal se aproximava Rita ia até a varanda recolher a filharada e tocava o sino de chamar o vento três vezes

os moleques apareciam correndo de todos os lados do mundo sujos e felizes enquanto a ama acendia os lampiões

mas naquela tarde Belarmino não chegou e a noite desceu antes que Rita subisse ligeira as escadas da varanda

olhando as paredes da casa que se fechavam sobre todos ela sentiu no peito um estremecimento uma falta um vazio um mau presságio um não sei quê que não a abandonou enquanto a casa seguia seu ritmo de todos os dias

e mandou chamar Machado estivesse ele ainda errando pelos cafezais pois que viesse logo sem perder tempo

logo a noite fez-se a mais escura das noites e tochas improvisadas vasculharam a escuridão entre tulhas terreiros toneladas de café secando ao sol de cada dia mas ninguém foi encontrado

nas horas da madrugada em que nem o sono podia vir Rita ficou sentada no escuro do quarto para não incomodar ninguém e não conseguiu sequer chorar

seu peito era uma jaula apertada na qual o ar lidava para entrar de quando em quando diminuto com muito pouca serventia

fez café antes que as criadas acordassem e saiu silenciosa assim que raiou o dia

deixando –se guiar por um sofrimento que não tinha nome nem tamanho

ao pé do riacho lá estava ele seus olhos abertos num susto sem fim chamando aconchego um corpo retesado e tão frio! num corpo desistido para sempre de viver

os gestos de Rita se tornaram lentos como se dançassem no ar à procura do que não sabia bem à procura de nunca terem existido para viver aquele momento de procurar de encontrar o xale no qual embrulhar Belarmino com seu corpinho pequeno tornado escuro pela morte

mergulhada no poço sem fim da aflição Rita soube que seu colo de mãe de doze filhos era inútil ela nunca reparara nisso como toda ela era inútil e desajeitada quando seu filho morto não necessitou mais do calor que seu peito trazia de um vão amor desesperado

de total inutilidade

não tem mesmo outro remédio

e mesmo que eu não me debruce para resguardar o dia para tentar privá-lo do possível esquecimento como estou fazendo agora ele continuará se escrevendo sozinho hora após hora

e porque cada história cada seqüência de pequenos fatos por vezes tão irrisórios é única meio por preguiça ou descaso é que convém contá-las

como quem tem apenas um pouco de febre como quem levemente delira como quem quer ( e sabe ser inútil a tentativa ) driblar o destino das pequenas coisas comuns como quem se rebela só um pouco sem rebeldia porque sente que nem vale a pena nem é possível de nada adiantará

e a vida se torna um pouco mais insípida talvez porque nesses momentos algum eco distante peça à alma passagem calmo como a calma que sobrevem à mais intensa dor

no sertão da coisa mais obscura

era uma voz que soava pequeninamente trêmula como estrela prestes a se apagar

mas ficava ressoando e brilhando nas noites frias essa voz menina como um canto nascente ou um canto moribundo num sempre fino filete de som

nas noites escuras o som brilhava como um refúgio estreito um pirilampo uma fresta de festa uma greta

nas grutas escuras o céu ainda se esconde da luz excessiva nesse pequeno som tão cansado agora de ser gente

tão anônimo e triste fica o som de não ser mais nada nunca nada ser

numa esquina

ela sentiu no olhar dele um misto de medo e vergonha

e desejou estar ao seu lado por vários sinais fechados fechada em sua ilha pequena de solidão tentando destravar uma timidez que agora só fazia crescer e se atirar em seus braços

ele pediu um cigarro

ela lamentou ele havia de compreender não havia bares por perto e ela não fumava enfim ela havia deixado de fumar que pena

ela sorriu sem jeito na tarde escura e pensou pequenas bobagens envergonhadamente

desejou poder resolver todos os problemas daqueles enormes olhos azuis entregando-lhe sua casa seu carinho sua cama seu colo árido de solteira mas atravessou correndo a rua como se fosse tirar o pai da forca

Georgina tece a noite

durante anos o tempo foi passado apenas no viver a vida a cada dia

a casa se enchia de cheiros e sabores

um dia o peixe ensopado o camarão noutro dia a carne de panela o milho verde cozido o pão de minuto

as crianças cresciam alguém tinha sarampo e logo estavam todos febris e a casa girava em torno dos quartos de se contar histórias que não tinham nem fim de se fazer compotas

e chegavam mais filhos e era preciso chamar a parteira que vinha solícita com chás e poções ligeiramente afobada

por algum tempo chorava um bebe e os corredores se perfumavam com o cheiro de fraldas

nas noites compridas a sala de jantar se agitava e os mais velhos contavam suas proezas enquanto jogavam o bingo

e mais tarde após aquietar a todos ela se deitava silenciosa ouvindo a respiração de seu homem no som contínuo das ondas do mar

então rezava uma reza sem letras uma reza calma sem nenhuma palavra agradecendo sua casa cheia seus filhos todos com saúde

mas agora tudo se fora como fim de sonho bom e sozinha tão sozinha como nunca ela ficara

e já não podia programar com as empregadas o cardápio da semana nem sair às compras na manhã de sol ou esperar o leiteiro

quando o falatório das enfermeiras cessa e o hospital entra naquele torpor das madrugadas naquele silêncio que não é silêncio naquele som que para ser um som necessitaria de alguma coisa viva como um canto uma risada de criança um cheiro de feijão queimando na panela ela ainda chega com dificuldade até o vidro da janela e tímida como a menor das criancinhas vê para muito além do vulto escuro dos prédios sua primeira casa o jardim e o poste aceso na noite espalhando no ar quente de São Vicente uma cruel alegria

é tarde sempre nesse hora parece ser mais tarde do que nunca mais tarde do que deveria mesmo assim ela ainda pode ver todas aquelas janelas acesas

colando o nariz ao frio do vidro pode ouvir o tilintar dos copos e as vozes alegres dos meninos enquanto cresciam ou saiam batendo com força o portão de ferro

pés em pétalas

quando as lembranças saiam pelas ruas

e eram lembranças de folhas e terra no outono elas encontravam outras histórias que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes

e quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas

quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias atrevidos todos a perambular

tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começassem sôfregas a cavar suas próprias e temporárias histórias

eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada

eram lembranças às vezes luminosas outras nem tanto que escapavam no ar azul que acompanhava o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio

" me lembra sempre o sitio " você me disse pela tela do computador imersa na cautelosa meia estação de Londres

e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase nunca se saberá

enquanto caminhas segurando a beira do casaco no frio de Londres que ainda permanece essa luminosidade que também é minha me percorre a pele fina que surge escorregadia por baixo da saia curta

bem rente numa proximidade fresca e quase abrupta nossos corações podem cantar baixinho ou mesmo não mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros em qualquer parte do mundo em todas nas quais passeiem nossos pés

e o ar se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse blossoms surgem por todos os canteiros enquanto caminhas

tão delicadas as duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos quem sabe distraídos por sobre essas florinhas miúdas num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos

ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum com seus porteiros e ônibus

minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade teimando em se mostrar juntas com pressa tão exibidas todas de sua existência autônoma

e então vão se deixando ficar pelas esquinas onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem em frases entreouvidas nos metrôs

são não minhas mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas

como me aproprio delas descarada vadia como se eu fosse um ladrão

mesmo assim elas seguem sem dono existindo quase matéria sem consistência nenhuma tão como se nunca tivessem sido vividas

na brisa do outono é bom caminhar entre árvores aflitas e vazia do que fui e até do que serei deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer como nunca

vejo que a liberdade das lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta

num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade que projete incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas plantas e viajantes

crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo prá não chorar pois as lágrimas não choradas e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta como quem não quer ser percebido

povoados imaginários

as nuvens se acumularam nas montanhas mais ao norte e Boiçucanga deixou-se anoitecer mais devagar dengosa assim como quem não quer ou talvez nem saiba bem

em Cerquilho o sino da igreja chamou sem muita convicção a noite tangendo cansado as Ave - Marias

Ondina sentiu uma fisgada doce em seu coração e pensou bandos de andorinhas ou gaivotas sobrevoando barcos em linhas sempre horizontais

sentiu-se então um pouquinho mais só numa vida que beirava sempre o fogão de lenha as vacas que mugiam ao entardecer no pasto próximo

a noite existia em Cerquilho em tachos de polenta postos ao relento e nas vozes chamando crianças

no curral uma vaca paria lenta ritmadamente

Boiçucanga ao mesmo tempo procurava sem saber o aconchego da noite

seus homens nos barcos em seus pequenos remansos de areia onde meninos ainda brincavam

as vacas mugiram longe no Dorighelo e ela ouviu Terê fechando a porta da sala

na bruma indefinida e crua feita só de estrelas e roncos distantes de caminhões passando na estrada para Tietê ela pode perceber que o mundo penetrava pela janela e viu flores roxas nascendo em desalinho pelo quintal afora até tocar a areia longa e mais prá longe o fundo mar

o sol se afogava num céu que só Boiçucanga sabia envolver em seus braços

a vida era isso Tereza fechando a porta o sol se pondo em Cerquilho e pelo mundo afora em horas tardias o sol nascendo pelo mundo todo a cada hora meia hora minuto o dia surgindo para alguém em algum lugar e ela vivendo num tempo absorto e nada absoluto que poderia ser qualquer um

num tempo de qualquer cidade de qualquer parte do mundo numa hora qualquer

quase sempre aos domingos

a feira de domingo trazia pequenos acontecimentos transparentes e ensolarados e

havia uma confiança absoluta e irrestrita vigorando no mormaço calado do meio dia

era preciso confiar na japonesa gorda do peixe nas datas de validade do frango e acreditar que a verdura não havia jamais boiado nas águas podres das enchentes

bom era poder guardar as moedas do troco sem nunca conferir perguntando pela saúde da família do feirante e outras coisas triviais

e sentar-se largada em plena rua tomando caldo de cana sem pressa enquanto o sol ia saltando por cima dos viadutos e lá embaixo na Sumaré o trânsito aumentando devagar

às vezes armar uma discussão com a moça que vende bananas só para poder levantar um pouco a voz dizendo leves desaforos

e chegar em casa e cantar Caetano e olhar a geladeira cheia com um carinho quase indecoroso

quase

ele chegou devagar e sentou-se em frente a ela

pousou as mãos no colo quietas como duas aves selvagens

ela pediu licença: havia ainda algumas coisas a fazer

ele entendia não havia problemas ficasse à vontade

ela arrumou a gaveta folheou mais uma vez a agenda

ele olhou a planta seca as luzes mortiças as paredes amareladas

desesperada ela viu por baixo da mesa os dedos dele metidos numa sandália havaiana cor de mel

ele semicerrou os olhos como se fosse dar só um cochilo

ela começou a sufocar com um calor imenso que de repente enchia seu peito

os olhos dele se abriram e um sorriso enorme e bom inundou o rosto fino

ela foi retribuir mas tropeçou no cesto de lixo e sumiu atrás da mesa

que desespero Meu Deus!

o ônibus corria na névoa da cidade embalado por uma música esquisita enquanto Inês reclinava o banco e olhava distraída a paisagem cinzenta

pessoas corriam e se abrigavam da garoa pesada pessoas tão pequeninas como aquelas de desenho de animação como as que imaginava morando dentro do rádio de quando era pequena

suas lágrimas teimavam em sair e ela apertou ainda mais os olhos

tudo era inacreditável no inverno a cidade ficava como que possuída por uma luz irreal e difusa como se tudo não acontecesse de fato como se cada dia vivido fosse mesmo para ser assim totalmente completo em sua total desnecessidade

tudo ficava escuro dentro e fora era uma escuridão cinzenta e meio impessoal como se nossas vidas fossem insignificantes e arbitrárias

sendo assim Inês deixava-se ficar com o vazio invernal e cinzento percorrendo seu corpo jovem a procura de espaços onde o tédio se instalasse sem nenhuma emoção

e o vento derrubava as lembranças uma a uma aos seus pés lembranças que chegavam sem mistérios sem tampouco terem sido convidadas

por trás dos seus olhos surgiam um a um os momentos de sua infância tão inexpressivos todos e cobertos pela geada do esquecimento

Inês a princípio lutou contra essas imagens que sempre vinham cercadas de tristeza era uma tristeza sem motivos uma tristeza apenas reservada às coisas que passaram e não voltam mais

em Orlândia as laranjeiras estavam carregadas ela pensou sem querer e bastou que esse traço de pensamento traiçoeiro chegasse sem aviso para que sua alma menina voltasse a desejar insensatamente com um desejo insano próprio do inverno poder voltar atrás

era julho em sua alma e ventos distantes de dias azuis teimavam em permanecer desmanchando seus cabelos

sem querer viu sua avó perto do fogão cortando a couve com seu coque pequeno e seu vestido de flores miúdas

e sua avó arrumou um pouco os óculos olhando curiosa sua neta que surgira de repente

era julho e a cozinha era grande e boa com a chaleira enchendo a casa de vapor e um cheiro amigo de bolo de fubá permanecia no ar como um presente

quem eram eles

como seria possível contar?

os olhos calmos curiosos esperavam atrás dos óculos

ela ia explicar mas então um mundo de lembranças recortes cheiros sons e palavras com pedidos e medos e sustos e intensos desesperos e horas felizes ficaram bailando no ar em torno e ela quase podia agarrá-los com uma só mão de tão materiais que eram

as chuvas de verão e o calor bom do verão e toda a sua insensatez e as mangas batendo nos galhos e depois no chão e de novo tudo e a cozinha e gritos e cores e dores e medos os terríveis medo da escuridão comendo em silêncio as paredes depois que todos dormiam e a morte rastejando atenta pelos quartos farejando perseguindo a morte das coisas todas que ela amara que ela amava ainda

a morte

ela voltou a olhar os olhos que esperavam não havia pressa neles só um brilho indagador

como contar?

ai! que a tarde seguia lenta e em algum lugar desperdiçava suas horas sem nenhuma pressa

sem nem fechar os olhos ela viu a sexta-feira caminhando solene para o abismo com suas vestes de seda vermelha na moldura do horizonte

um raio rasgou o céu sobre o mar

delicadamente

quem era ela?

um punhado de

não

um momento

nada

ela olhou suas mãos queimadas pelo sol as unhas curtas suas pernas fortes seus pés acostumados a percorrer longas distâncias

sim isso era ela sentada um instante antes de se abandonar à brisa morna da tarde num bar qualquer à beira mar tentando se explicar a um desconhecido que sorria para ela agora como se

um desconhecido que parecia já saber dela e de sua vida sem ouvir palavra nenhuma um homem que parecia ter lido no ar seus pensamentos espalhados

nesse instante Vera percebeu que as palavras mesmo as que iam sendo pensadas não permaneciam mais que um segundo no ar iam se desfazendo com o vento que se encarregava de jogá-las fora e longe como convém às palavras

ao léu

e era engraçado vê-las se desmanchando primeiro na areia depois mais alto no ar iluminado e também nas gotinhas brilhantes que cada onda deixava no ar

então ela se viu desejando uma noite pesada sem sonhos na qual ela também pudesse morrer se desmanchar e renascer outra com o sol

os olhos por trás dos olhos já sabiam: ela seria dele

receita de sábado à tarde

porque talvez o sábado seja um dia insípido saio recolhendo a poesia espalhada nas coisas do mundo enquanto vou ao mercado

e pelas ruas como lixeiro por infinitas calçadas eu trago objetos atrevidos que me saltaram aos olhos exigindo serem percebidos

não eu não invento nada disso as coisas se atropelam em sua tranqüilidade e se atravessam no caminho que percorro às vezes até com fastio

não é minha culpa se trago umas e deixo outras à mercê da própria sorte pois mesmo seres inanimados sentem a passagem dos meus passos e avançam cheios de si

exausta de caminhar e de prestar tanta atenção ao que ocorre em meu caminho passo a recolher a poesia solta nas gavetas da cozinha com suas colheres facas garfos conchas

essas coisas delicadas e prosaicas também pedem aconchego e guarita

tão indefesas e tontas são agora que me enchem os olhos de lágrimas como se fossem pessoas pequeninas pedindo colo

a vida nessa casa ganha então uma desmedida fartura com as coisas saindo de seus cantos e navegando no ar translúcido da tarde

apenas cerro os vidros para que não se percam além das paredes para que eu não as perca de vista porque é bonito olhá-las enquanto dançam livres de sua rotina diária

e depois quando se cansam regressam aos seus lugares de origem e já a noite vem e elas passam a existir novamente como coisas de todo o dia

mas é nessa hora então que uma enorme compaixão toma conta de mim e passo a armazená-las também nas palavras como arrumo as verduras e frutas na geladeira

uma a uma com toda a delicadeza


são tantos os que se foram!

ele sentiu a noite chegando na gritaria das galinhas procurando os galhos altos das mangueiras

e percebeu que o sol já se fora quando chegou à varanda e sentiu o vento frio do anoitecer

soube assim que estava irremediavelmente perdido

então caminhou até a porta e apoiou o rosto no batente áspero

a noite trouxe grilos e sons longínquos de pássaros chegando apressados aos ninhos

um gavião papa passarinhos gritou no alto da montanha

apurando seus ouvidos ele pressentiu o namoro dos sapos na lagoa fria do pasto

o silêncio cresceu nos sons do mato que aumentavam

bateu nele uma saudade que não cabia no peito

em algum lugar tocavam as ave-marias

em algum lugar onde agora ele jamais estaria

olhou sem ver os telhados das casas dos sítios próximos e soube que Dona Augusta talhava o queijo e que Seu Rico tomava seu bom copo de vinho esperando a polenta frita

soube que na casa deles as meninas ligeiras temperavam a salada

soube porque era assim sempre fora assim

o cheiro do limão espremido subiria pelas paredes da sala

Dona Ondina serviria os pratos de seus netos um a um

a sopa fumegante o fubá a couve rasgada os pedaços de linguiça caseira

as vacas mugiriam no curral lenta repetidamente

na cidade as luzes se acenderiam com método de muitas em muitas comadres tão pequeninas

então ele não ouviu dentro de si o chamado da janta e não sentiu o cheiro forte do limão no tempero da alface

nem colocou sal nos tomates cortados ao meio

ele estava para sempre perdido

de si tinham partido todos

não sobraram vozes risos nem o canto de sua mulher espantando com incenso os fantasmas da casa

não haveria mais o cheiro do café ao amanhecer nem o crepitar das achas no fogão de lenha

não haveria o choro das crianças

nem haveria a enxada ou os campos prá carpir

respirou fundo mas o ar não veio

dentro dele o medo se enroscou feito urutu vinda do cafezal

no silêncio de depois pôde ver saída da escuridão que adivinhava

sua mãe menina que lhe sorria

sempre assim

não era possível ele pensou nem era justo não podia ser

com dificuldade buscou chegar à janela

a cidade seguia na rotina das manhãs como se ele não estivesse ali olhando por trás dos vidros os carrinhos de feira

os barulhos de sempre como eram tantos os sons do dia começando

um sol espesso ferino

meu Deus então mas o quê?

o quadrado da janela foi sumindo mas não era hora

era muito cedo ainda!

sentiu no ar parado um tom de folhas caindo

devia ser brincadeira

um enorme frio foi se ocupando dos móveis

então seu Matias foi despencando devagar suspenso num desejo imenso de ficar

mas o mundo já era uma sombra distante recortada no vão da porta onde o sol esturricava a tinta que ele não podia mais ver



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